Na janela

Já era noite e ela estava na janela. Estava tudo tão escuro, mas ela sabia que o mar estava ali. Tentava abstrair o barulho da TV para ouvir as ondas do mar. Sim, ela ouvia. Olhava para o escuro céu infinito, tentava abstrair os prédios, as luzes acesas, o concreto, para ver os brilhos das estrelas. Sim, ela via.

Ali apoiada na janela ela pensava: Será que existe um amor pra vida inteira? E via todo aquele concreto e lâmpadas acesas, imaginava o que aquelas pessoas estariam fazendo naquele momento. Será que elas pensavam em amor também? Será que no intervalo entre lavar a louça do jantar e pôr os filhos na cama, alguma mulher suspirava pensando no que a deixava com o coração acelerado? Ela não sabia a resposta, mas ela estava na janela pensando no amor. E ela via as estrelas.

E uma vez ou outra o barulho da TV a interrompia teimando em trazê-la para a realidade. Mas a brisa do mar ouriçava seus pêlos e ela se ajeitava na janela abstraindo-se das notícias ruins que o jornal anunciava e que ecoavam pela casa vazia. E se existe mesmo um amor pra vida inteira onde estaria o dela? Sim, ela acreditava que deveria existir alguém que a deixaria realmente apaixonada, mas ela não pensava nisso de vida inteira, ela queria apenas a oportunidade de sentir esse amor. Sim, ela queria sentir.

Ela desejava. Ela pulsava seus desejos pelo corpo inteiro. Ela ainda estava na janela sem saber do tempo, alguns poucos minutos, que a levava para tão longe. E esse momento era tão mágico. Ela sabia que apesar de tudo, do barulho, dos prédios, das lâmpadas, ela sabia que havia algo belo por trás de tudo. Ela ouvia o mar. Ela via as estrelas. Ela pensava no amor. Sim, ela sabia.