segunda-feira, setembro 05, 2005

A Bahia é gay!

Três horas da tarde de um dos domingos típicos de minha Salvador. Mas acho que só quem é daqui vai ter compreensão exata do que eu quero dizer com "clima de carnaval"... as ruas são um caos divertido de rostos sorridentes, que vão num crescendo de vielas estreitas à amplidão da praça (já nem tão ampla assim, considerando a ocasião e o número de pessoas espremidas)... Vem sempre um vento bom fazendo a gente se sentir "mais gente", a cada vez que sopra refrescante de leve no rosto... pedacinhos de felicidade, inalados em forma de pano e líquido borrifado... e o mosaico de cores fortes chamativas, em levas de grupos quase prontos a guerrear uma guerra do bem, está em todos os lugares.

E é neste clima que, chegando devagar, começo a notar o que de longe não ficara tão claro... As demonstrações afetuosas de carinho - sempre mais explícitas em momentos como estes - são marcadas pela sutil diferença de que envolvem em sua maioria pessoas do mesmo sexo. É um pessoal alegre, sorridente, e o dia é deles... Chegar ao centro da festa é difícil... acho de, sem querer, escolher o pior dos caminhos. O que vem justo ao encontro do trio. E pago pelo erro, quando de repente estou a tal ponto cercado que não há pra onde ir. Como em todo bom carnaval, lá uma hora a gente acaba no meio do que aqui em minha terra se convencionou chamar de "trenzinho". É mais fácil vencer a turbulência que vem em sentido contrário quando se está assim, juntos em fila indiana. Ora... de repente, estou envolvido por uma fila de meninas. É uma sensação diferente perceber a química que funciona entre elas... é como se estivessem durante todo o tempo com a libido a ponto de explodir! E, bom... acho realmente que uma tarde quente de domingo de quase carnaval, num ambiente com música tão alta, o calor de tanta gente, cercadas por pessoas que as entende e aceita... se isso não for o mais perfeito dos gatilhos pra desencadear anseios reprimidos, então nada mais é!

É assim, envolvido por estes pensamentos, e pelo tato macio (que a esta altura já não é mais só mãos... é todo ele corpo) da menina bonita e sorridente de lábios vermelhos carnudos e cabelos trançados atrás/colada a mim que vou avançando vagarosamente, ao som da voz roufenha do transsexual que os conclama a todos a seguir em frente em sua marcha. Aliás... coisa interessante... porquê todos os trans tem a voz afetada assim? Seja lá como for, prefiro naquela hora a calmaria da praça às mãos de minha pequena amiga - cujo direcionamento sexual ainda agora me pego em dúvida sobre qual seria - e sigo em frente até um pedaço de chão mais calmo, e consequentemente com mais vendedores de cerveja, onde esperar a companhia que já estava atrasada (só pra não deixar margem a dúvidas, uma menina heterossexual), entender melhor minha primeira passeata gay, e tentar me divertir um pouco por ali. Escolho um banquinho familiar, onde o que me parecia um grupo "marido-mulher-crianças-todos-alternativos" básico estava, compro uma água e observo a distância segura um tipo de mini-concurso beleza gay, ou algo assim. E devo admitir. É realmente impressionante como algumas dessas "meninas" conseguem ser mais atrativa que a grande maioria das mulheres que conheço! Nessa hora passa por mim um rebolativo transsexual de cerca de 190cm de altura, aumentados ainda mais por um destes tamancos de salto alto (que com certeza, como toda essa indumentária feminina, deve ter um nome complicado qualquer), com o maior e mais arredondado par de seios que eu já vi num homem (hmmm), que é todo boca vermelha, purpurina e calcinha fio dental. Seguido pelos esperados aplausos e os fiu-fiuus de praxe. É... a festa definitivamente era deles... Deu pra perceber uma coisa engraçada... Nós heteros, tendemos a enxergar os homo como um grande e coeso "bloco" de pessoas às quais não costumamos dar tanta importância, a não ser quando aquele amigo meio estranho resolve sair do armário, ou mesmo a amiga da tia... Mas é impressionante como há tribos menores entre eles, que parecem ter suas próprias regras de comportamento e convivência! Em poucas horas pude perceber os caras fortes, do tipo que gasta horas em academias, e são conhecidos como "barbies" (não perguntem o porquê... não faço a mínima idéia). Há também aquele tipo frágil e praticamente etéreo de bibinha da cara sonhadora, que se veste bem (pros parâmetros de moda deles, evidentemente), e anda em grupos barulhentos e coloridos. Ah, e que dizer dos tipos que estão sempre por aí, machões até onde seja possível disfarçar, e que no entanto revelam-se em ocasiões como esta? Sem falar nos chamativos travestis e drag queens em cores berrantes, com seus trejeitos e performances.

Mas é isso... minha companhia chegou, minha festa foi mudando de foco... e no final das contas eu não sei se "a Bahia é gay", como insistiam em apregoar em cima de trios avenida afora esse grupo de homossexuais politizados... mas uma coisa eu sei... pelo menos por uma tarde, o Campo Grande inteiro foi palco de algo que transcende orientação sexual, quantidade de melanina na pele, visão política ou posição social... a difícil arte da aceitação do outro. E ano que vem vou estar lá, com toda a certeza do mundo! :)

5 comentários:

Mary disse...

Adorei o texto, cb!

A parada deve ter sido muito legal... e, com certeza, não é só a Bahia que é gay! :P

Beijos ;*

Vinicius disse...

Sempre achei que eu tinha a mente aberta e que não tinha nenhum preconceito e tal. Mas você Léo, está de parabéns!

Como eu não gosto de carnaval nem de qualquer festa/evento que misture muita gente, música alta e desconforto em geral, eu não iria para uma passeata gay, como não vou ao carnaval.

Além do relato excelente do que você viu, parece que você saiu de casa, o que é coisa rara!

Abraços.

Baiano disse...

Ihhh, rapaz... :)

[]´s

Múcio Góes disse...

Adoro essa riqueza de elementos que a rua nos dá, apesar de sair muito pouco (como Leo tbm?). E Salvador é um achado para isso, né? Posso imaginar... Belo texto, transbordando poesia...

"...pedacinhos de felicidade, inalados em forma de pano e líquido borrifado... e o mosaico de cores fortes chamativas, em levas de grupos quase prontos a guerrear uma guerra do bem, está em todos os lugares."

[]´s

Anônimo disse...

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