terça-feira, abril 17, 2007

Morena

Você passa morenando por aí, deixando meu coração sem graça, perdido e encantado, pulsando acelerado em cada novo encontro, em cada novo papo. Enquanto andas por esquinas a mim estranhas, sinto o pesar dos antagonistas que me roubam-lhe a presença e que me afrontam, pois sou aquele que ainda está do outro lado, longe dos teus dias, longe dos teus olhos, longe dos teus braços.

Aprendo todo dia a conhecer as diferenças, nossas distintas existências e me sinto apreensivo por aqueles que a saúdam; me afobo ainda que sabido que não é para já a nossa história. Mas essas tantas diferenças me soam positivas, pois os iguais não se completam: se amontoam.

E você que cifra o tédio me cativa a todo instante, tornando a ária o viés do ermo e eu, que verso o fastio dos domingos, sinto sua voz ora familiar tomar conta da minha mente, mais um véu que cai por terra, mais mistérios por saber. E teus enigmas seduzem, já que és fascinação travestida em mel castanho, cor do pecado abençoado por Apolo, lira encantada que rimou todos os sons e minhas letras.

Eu que canto versos tradutores de você, sigo roubando poesia como posso, acumulando hordas de palavras e seguindo o instinto de querer mais de você, verbo transitivo, ponto de exclamação, continuação da minha frase, querer com precisão, cativadora de emoção, tempo e ação, finalização.

E agora que já sabes do intento, sigo ao relento enquanto busco em ti abrigo, poema de domingo que não versa com o ócio, mas que segue na promessa de fazê-la entender que na distância de nós mesmos, nossos mundos se encontram, e que rimamos um com o outro, soneto métrico disforme, hiato decassílabo, você e eu, unidade indivisível.

E porque não?

sexta-feira, abril 06, 2007

Eu, vovó e os óculos de sol

Há alguns dias vovó passou por uma cirurgia de catarata, e está em período de recuperação. Correu tudo bem tanto com o procedimento cirúrgico em si quanto com a recuperação inicial. O que, conhecendo-se o espírito irrequieto e personalidade forte da vovó, pode ser considerado sob todos os aspectos como um considerável progresso. Vínhamos conseguindo que ela se mantivesse na casa de uma tia, tranquila e atenta às recomendações médicas... Sabe, é aquele tipo de coisa simples de se seguir, como evitar os vapores vindos do fogão, movimentos bruscos de cabeça, focar lugares muito claros e mais outro tanto de estripolias que em geral nem se imagina mesmo que velhinhos façam. Vovó, evidentemente, já foi pega por várias vezes em frente ao fogão, já quis lavar roupas debaixo de sol a pino, e disse que não precisa mais ir ao médico fazer a revisão. Compramo-lhe uns óculos de sol que na verdade nem são mais tão necessários assim, mas... bom... já que ela não suporta usá-los, e eles lhe dão um certo ar de nobre comicidade, porque não mantê-los um pouco mais?

A questão é que tem sido realmente complicado mantê-la sob controle. Trata-se de velhinha que teve sempre sua liberdade, e apesar dos esforços que a família inteira tem feito (some-se a isto inclusive o valoroso grupo de agregados - namorados, amigos outros tantos que orbitam aleatoriamente a família e em geral vem e vão ao sabor do vento e dos relacionamentos) ela na maioria das vezes faz o que bem entende. No rol do que poderia ser considerado "fazer o que bem entende" está resolver sair da casa da tia sem maiores explicações e vir ficar comigo... E eis a situação atual: Ainda que relutantemente, vovó concordou em fazer algumas concessões (do uso dos óculos, apesar da pouca importância prática em sua recuperação, não abrimos mão), e tem até repousado bastante. Tenho feito minha parte e passado mais tempo com ela. O que tem sido, é bom que se diga, uma experiência interessante, já que me permite assimilar um pouco melhor trechos das histórias que ela já contou dezenas de vezes, mas que não haviam ainda ficado tão claros. Ainda ontem, quando acordei, escutei-a conversando. Era ainda muito cedo, e julguei que estivesse falando sozinha (é... ela tem feito isso às vezes), mas lá estava a namorada de meu irmão - a mais nova agregada - escutando-a monologar sobre qualquer coisa pitoresca de sua infância. Pois que seja ela a escutá-la... pelo menos pra ela é ainda novidade a história.

No meio da semana temos uma consulta de revisão já marcada com o médico da vovó. Como ela precisa operar os dois olhos, e até agora só fez cirurgia em um, é bem provável que tenhamos dentro em pouco mais um turbulento período de recuperação...