quarta-feira, julho 27, 2005

Janeiro em Bagdá


Querido sobrinho

Espero que esta breve missiva te encontre em perfeito estado de saúde; da mental à física. Não só a ti, óbvio, mas aos que te cercam e são por ti amados. Já de mim, bem quereria dizer-te maravilhas, ou pelo menos, no que tange à casa das alegrias, que fossem muitas. Logo eu, este que bem conheces, e que sempre fui tido pelos nossos como sendo uma moeda rara, destas talhadas com falha, e que vêm da feitura com um só lado, ou, com os dois trazendo o mesmo cunho: o do humor. Sorrir por aqui nesses dias tem sido verbo em desuso, já sobreviver, este sim, necessário.

Os dias arrastam correntes; a lentidão os dá a impressão de terem mais horas que o comum, e isso me cansa a mente. Antes me fosse o trabalho motivo de distração, como naturalmente o é em outros sítios longe daqui. E ao lembrar-me que estudei jornalismo com paixão sem perceber que esse momento em que vivo poderia chegar, me causa um desgosto, uma angustia, que se faz escusado falar de tão visível. Sair às ruas com capacete de aço e colete à prova de fuzil não é lá tão divertido assim, ainda mais para fotografar rios de sangue que correm meios-fios abaixo, e corpos deixados ao relento e entregue às moscas. Mas o tenho feito, com coragem e amor ao que faço.

A região está sitiada, e além de uns poucos loucos jornalistas que perambulam entre escombros e vielas, está apenas a milícia em combate com as tropas federais. Já os poderosos, estes estão de ancas bem assentadas sobre suas regras. Consolo-me sabendo não haver crianças por aqui, ou seja, civis. Depois de ter sido saqueada a minha parafernalha tecnológica, por onde enviava os “frutos” do trabalho aos vampiros midiáticos, tornou-se mais difícil não ceder aos encantos da solidão, as máquinas me distraíam, ou tentavam. Vou todos os dias ao posto onde pego mantimentos, e deixo meus filmes, já que não uso mais minha máquina digital, os saqueadores disseram que dela não mais me serviria, e eu não pude reagir. Aceitei. Perdi. Pego alimentos, remédios, e velas, pois quando do toque de recolher se faz necessário o uso de. Agora mesmo, escrevo à luz de uma delas.

Mas eu falava de solidão..., esta é presença certa aqui em cima. Vivo num cubículo com o essencial, e a segurança relativa que tenho se dá ao fato de ser jornalista. Uma janela é minha tv de canal único, cabendo ao céu a programação. Há noites com lua, noites sem. Estrelas e nuvens se alternam. Tiros traçantes também cortam o ar na minha tv, num balé sangrento e inescrupuloso. E sigo clicando. É de interesse da milícia chocar a sociedade com minhas fotos mudas, as imagens dispensam títulos, e aos “vampiros” interessa sangue na primeira página. É uma espécie de consenso de interesses. E sigo clicando e sozinho. Vez por outra, a título de distração, abro meu Pessoa: “os deuses vendem quando dão...”, ou encarno Hemingway nas festas de San Firmin – entre vinhos, touros e mulheres -, em “O sol também se levanta”, como queria ter vivido aquilo. Sinto falta das mínimas alegrias, as fáceis, as fugazes. Para que tenhas uma vaga idéia, vai-se longe o tempo em que ouvi uma música. Não, não, cá estou a mentir-te, posto que esqueci de um achado importante que fiz outro dia numa casa abandonada onde me posicionei para uma foto. Era um pequeno embrulho jogado num canto. Levei-o comigo sem saber o que era, e grata foi a surpresa que tive ao descobrir uma caixinha de música, das que se guardam jóias e lembranças boas, e repousam nas penteadeiras frente a espelhos empoeirados. Alguém deve tê-la deixado numa fuga às escuras. Não tem a tal bailarina, mas foi só abri-la, e aos primeiros acordes da Bagatelle de Ludvig (cego é quem disse que ele era surdo), de olhos cerrados, a vi bela e sublime a evoluir para mim. Desde então, sempre à noite, nos raros silêncios, abro a caixinha que o acaso me presenteou para ver minha bailarina.

Saudades... De saudades não te falo... Já de lembranças, digo-te que as tenho aos rodos. Levando em conta a distância de casa, e do dia em que de lá saí, este, motivo de minha primeira foto mais nítida, e que guardo com carinho na gaveta dos sonhos possíveis. Esta me garante a volta para casa. E lá vou eu descambando para o campo das esperanças, estas que são o meu combustível. Vivo disso, de ter esperança, de ser otimista, de acreditar que isso vai acabar amanhã.

Por hora meus olhos me chamam ao sono, mas antes, perdoas-me pela qualidade do papel, do português, e da caligrafia. A vela e a mão direita não me ajudam tanto. Esta segunda se deu a uns tremores ultimamente, mas nada sério, espero. Fato é que não vejo a hora de poder descer daqui, sair no rumo das salgadas águas deste doce mar que nos banha, e molhar ao menos os pés. Peço-te que reveles estas notícias aos nossos, e lhes transmitas meus abraços ternos. E àqueles que perguntam sobre “aquele teu tio que foi à guerra”, digas para estes que ainda respiro. E por fim aviso-te não ter esquecido uma promessa que te fiz, e que não deves ter olvidado, aquela da foto, da segunda foto mais nítida que farei, a de um belo pôr-de-sol no Arpoador.

Recebas um abraço deste foto-jornalista que vive de esperanças. Até breve!

RJ/2005

Dedico este escrito ao Jean Charles, um Brasileiro que foi vítima de vários terrorismos. Primeiro o de ter de sair do seu país para tentar viver melhor em Londres. Depois o de Bush, o de Blair, o de Berlusconni, e o de Bin Laden, estes que se acham os melhores “administradores” do planeta. Deus já salvou Jean, e desses outros eu tenho pena.



7 comentários:

Mary disse...

Estou aqui com a caixinha na mão... fechada... em silêncio... para não ofuscar o brilho de suas palavras...

Ercília disse...

Eu não vou fazer silêncio, Múcio. Acho que não é o silêncio que vai combinar com tuas palavras. Tuas linhas combinam com emoção e outros ãos rsrsrsrsrsrs.

Mas ao mesmo tempo não sei o que escrever. Estou boquiaberta desde a primeira vez que o li. Emocionada com cada palavra, cada linha, cada sentimento. Estou emocionada com as forças das tuas palavras e tua própria força.

Múcio, espero ansiosa todas as semanas pelos teus escritos de quarta. E cada vez mais me conquistas.

Não tenho mais palavras para ti, só suspiros. Pois é: ai,ai.

Beijos...

Ercília disse...

"Sorrir por aqui nesses dias tem sido verbo em desuso, já sobreviver, este sim, necessário."

Pois então vamos sobrevivendo de esperanças e amor. De paixões e lutas inglórias...

Blue Woman disse...

Será que posso marcar aqui que apenas li e amei tudo.
Estou buscando palavras boas para comentar descentemente; se eu conseguir, eu volto...rsrs

bjão!

André disse...

E agora!? O que dizer!? Calar-me diante de tamanha grandeza!? É... Inicialmente seria a melhor opção... Porém teria que deixar de lado a oportunidade de vangloriar texto tão bem elaborado... Detalhado... Emocionado... Calado!
E assim sendo... Tiro não só o chapéu... Como tudo o mais... Só assim... Nu... Posso tentar ficar tão transparente quanto esse texto!

P.S.: Tem como não bater palmas!? =P []'s

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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