terça-feira, julho 26, 2005

Era uma vez...


Maria gosta de novelas. Dia desses, chorou vendo uma cena romântica. Lindas e sofredoras, a mocinha e ela. Olhou a solidão. Uma colcha de retalhos. Saco de fritas batatas no chão. De chocolates. De balas. Um refrigerante light. Ainda sentia frio. Ainda sentia fome. Ainda chorava em frente à televisão.

Maria acredita em príncipe encantado. Maria é princesa na torre, molestada pelo dragão. Maria suja a calcinha com menstruação. Maria usa batom rosa. Ensaia Saramago. É Espancada pela sutileza e dor das pétalas de Florbela.

Maria assiste a filme pornô. E dorme sem emoção. Maria tem cabelo caindo na testa. Cigarro na boca. Tatuagem na vontade. Poesias não reveladas. Segredos nunca ditos. Peito duro. Óculos de sol na gaveta.

Maria é triste. Maria é alegre. Mais triste. Mais alegre. Maria sabe fazer feijão. Sabe sambar. Sabe costurar. Maria vê suas propagandas nas revistas do salão. Na cidade, no outdoor próximo à estação. Maria faz dieta. Engorda mais que emagrece. Maria sente saudade. Maria canta Ana, Marisa e Adriana.

Maria obturou a última cárie. Maria sonha com uma lua-de-mel no Tahiti. Maria “agiletou” a perna no banheiro. Abaixo dos pulsos. E tingiu de vermelho o jornal de domingo. Maria defende o Presidente. Maria fala inglês, alemão e francês. Maria “pegou” seu vizinho português.

Maria acredita no amor. O amor não acredita em Maria.

...

João chega de carro com seu amor. Não beija, aperta a mão. João é gay. Tem gente na janela. Gente que olha João. Gente que não dá bom-dia a João. João que olha aquela gente. E vive quase em uma prisão.

João já visitou o primeiro mundo. Já gostou de mulher. Já fumou maconha e não fugiu do seu quarto. João não sabe o que quer e vive de fazer os outros encontrarem o que querem. João é um caso comum, em um planeta de falsas percepções.

João encena sorrisos. João está feliz como nunca. João está triste. João não acha justa sua felicidade. Preso à culpa dos padrões. João tem dúvida se é certo continuar feliz. João encontrou seu príncipe encantado e na bagagem, o cavalo branco e manco da insegurança.

João toma roska sem canudo. Faz musculação. Recita o Pessoa. Che estampado na camisa. Causas sociais discursadas. Usa sunga preta, de caso com a promíscua Havana do Pedro Juan, nas areias da Itaparica Ubaldiana.

João usa perfume de macho. Cueca de macho. Tatuagem de macho. João é macho. E toca violão. Faz ponta de locutor. Compõe olhando a lua. Emociona-se com o “Avesso” de Vercilo. E as poesias do Moraes.

João tem medo do amor. O amor não tem medo de João.

...

Maria e João às vezes transam. Ele cedendo à culpa. Ela à solidão. Não se preocupam com o gozo. Gozam do momento. Trocam confidências. Sabem das suas preferências. Compartilham os desejos. Desejam-se sorte. Dizem que se amam. Cada um com a sua forma de amar.

Maria e João estouram um champagne. Ele paga a conta. Ela retoca o batom. Ele abre a porta do carro. Ela sai sorridente. Seguem rumos opostos. À espera de um próximo telefonema.

Comemoram a morte de mais uma noite com um comprimido qualquer. Acompanhados da mesma insegurança. Acompanhados da mesma solidão. Insegurança de João em Maria. Solidão de Maria em João.

11 comentários:

André disse...

Pois é... Depois de pouco mais de uma semana de férias estou de volta... Desculpa ter sumido mas as vezes a faculdade nos explora mais do que agente imagina! =)

E quantos milhares de Marias e Joões não há no mundo!? Não concordo com o homosexualismo... Mas respeito... O problema (para mim) são aquelas pessoas que nem se quer conseguem dar o respeito a um ser humano. ;) []'s

Blue Woman disse...

bonito!

Liliane disse...

mesmo n acreditando mais no amor, um dia ele renasce.
bjos

Mary disse...

Gostei mesmo do texto, Patita...
Pensei no amor... será que vale mesmo a pena todas as formas de amar?
Pensei na hipocrisia das pessoas... no preconceito...
Pensei na solidão...
Pensei na carência...
Enfim, muitas reflexões de seu texto...
E eu aqui, pensando com meus botões...

Beijos! ;)

Ercília disse...

Uau, Patita!!! Viu a intimidade? Texto forte. Estava sentindo falta do assunto amor por aqui. Que bom que você começou.

Múcio Góes disse...

Joao e Maria, Paula e Bebeto, Leo e Bia... Eu creio! Lindo, Patati! []'s

Anônimo disse...

Fantástico! Parabéns! Excelente!

Classificação: 5 Estrelas

Dadox disse...

Gostei muito deste texto! Muito BOM.. comentários excelentes! Parabéns.. escreva sempre!

dadox disse...

Kd meu comentário???

ObservadOOr disse...

Seguem seus próprios rumos, mas se amam nos rumos opostos. Um amor incontinente, um amor de complemento. Não se completam, mas se deixam amar com a vontade de ser inteiro. Amam a metade de si mesmo. Bela história de amor, de um amor companheiro e verdadeiro. E que, de forma outra, sabem até onde pode chegar. – Passando, lendo e comentando... Abraços

Anônimo disse...

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