segunda-feira, julho 11, 2005

Meu São João

Só pra constar, este texto não está sendo escrito numa segunda-feira. Esta é, na verdade, uma tarde fria de Sábado de São João. Na condição de "meu primeiro", o texto deveria ser sensacional, denso, ou pelo menos ter muitas referências inteligentes e sarcásticas, além de recursos linguísticos que o tirassem da esfera do lugar-comum literário... Mas no final das contas, isto não é nada além de um relato nostálgico e um tanto desconexo do que vai passando por minha cabeça agora, bem regado a generosas doses do saboroso licor de Cachoeira, cuja garrafa está logo ali ao alcance das mãos.

Ontem foi dia de festa lá na cidade. Nada demais... os rostos de sempre... os cheiros de sempre... as cores de sempre... de fato, um estilo de festa que já não é mais a que eu cresci aprendendo a gostar. Quem, como eu, teve infância vivida no interior, bem sabe que Junho tem mais da quentura boa e convidativa das cozinhas das casas amigas que dos quase-abadás coloridos demais e dos pseudo-forrós de ruas fechadas para quem os possa pagar. Mas quer saber? Em meio a este novo São João, ao qual ainda estou tentando me familiarizar, acabei por ir percebendo algumas coisas danadas de boas. Descobri que nem é assim tão complicado aprender o samba-de-roda (!?) do Recôncavo. Descobri (pra minha imensa felicidade, devo dizer) que ainda consigo me enternecer com ao monte de pequenos bibelôs de penteadeira duma velhinha encarquilhada e quase cega num quartinho humilde, desarrumado e quase sem luz. Aliás, é gostoso visitar casas, e é alentadora a sensação de ser bem recebido em cada uma delas, todas coloridas e geminadas em sua pobreza digna. Aquece o coração da gente.

Ah... mas descobri também que a memória ainda é um pouquinho mais que um sem-número de detalhes práticos da vida diária acumulados, e que a visão e atmosfera certas bem que ainda acendem um mundo de coisas boas (ou de repente, é só mesmo o álcool fazendo efeito). Foi a visão da menina de rosto arredondado, cabelos ondulados e olhar bonito, expressivo e distraído, dançando logo ali, tão "mais uma" entre tantas outras que atiçou tudo, acho... É que fui descobrir ali no meio da chuva, do samba-de-roda e dos potinhos de barro da Feira do Porto as lembranças de minha primeira namorada. E estas, por sua vez, trouxeram as outras num turbilhão. As velhas freiras acizentadas de meu colégio, com suas carteiras de madeira feias, pesadas e riscadas, resquícios de sabe-se lá quantas gerações de pequenos estudantes, em que nos faziam sentar aos pares... Até do aroma dos cabelos da menina que costumava sentar na carteira em frente a mim lembrei. E tinha aquele janelão a minha esquerda, de onde podíamos ver a ponte, e onde eu lembro de passar tanto tempo pensando em tanta bobagem (bobagens que hoje eu daria qualquer coisa pra ter uma idéia de quais eram). E tinha aqueles bonequinhos de plástico horríveis que vendiam lá no armazém cheirando a sabonete Phebo, farinha e café preto forte e bom, que eu sempre comprava cedinho na ida ao colégio. O presépio enorme e iluminado de uma velhinha amiga de minha mãe, que me fazia ficar ansioso durante todo o ano esperando as novidades preparadas para Dezembro. Nosso sotão, que em minha cabeça de menino impressionável fazia barulhos assustadores à noite... E até da pracinha, onde sentávamos a menina de rosto arredondado e eu, e onde ficávamos de mãos dadas depois do colégio, falando-nos tanta bobagem e vendo, com o jeito sonhador que os meninos costumam ter, às vezes o trem, sempre o rio...

E pelo menos agora, enquanto afago a cabeça grande, irrequieta, macia e dengosa de meu rottweiller (o velho amigo King), olho o nada de frente com o resto do que ainda ontem era uma enorme fogueira, e que agora vem em pedacinhos cinza que caem no papel em que escrevo, e no copo em que bebo, e até parece que esta droga de mundo é um lugarzinho onde bem vale viver, no final das contas... Ou pelo menos, vale este pedaço de terra em que estou agora, onde coisas como o tempo tem uma forma toda própria de acontecer, e estou cercado das coisas de que gosto.

Vento frio, solidão, um cão grande, desengonçado e amigo me esquentando os pés, o forrozinho brega cujo som insiste em vir baixinho sabe-se lá de que rádio roufenho da vizinhança (e ora, vejam só! é Norwegian Wood que vem de algum outro canto também!), um litro de qualquer coisa alcoólica que esquente bem por dentro...

Taí... Se algum dia eu tivesse pensado em chegar a envelhecer, ou se o acúmulo de bens estivesse entre meus projetos de vida, acho que os tais bens seriam investidos num pedaço de mundo como este, bem como os anos que me restassem.

12 comentários:

Renata disse...

Até consegui visualizar a tal da felicidade.
Que seja preservada! :)

Ercília disse...

Eu estou me encontrando nessa crônica. O bom saudosismo, as boas lembranças de infância. A velha e recorrente frase "No meu tempo era muito melhor." O rottweiller. Norwegian Wood. Um litro de qualquer coisa alcóolica... Parabéns!!!!!! Demorou mas não decepcionou em nada.

André disse...

Demorou mas valeu a pena hein!? Tá de parabéns msm! Muito bom cara! =)

Baiano disse...

É verdade... Coroou as apresentações!
Bem vindo, compadre!
Tirei o chapéu!

[]´s

Vinicius disse...

lindo. poesia pura que me fez lembrar da minha propria infancia, mas na cidade grande...

Gabriel disse...

Identifiquei-me com o texto em alguns momentos. É bom quando nós notamos que o passado construiu o que somos hoje.

Anônimo disse...

Fiquei engasgado com o cheiro forte das lembranças. Parabéns! Excelente.

Classificação: 5 Estrelas

Múcio Góes disse...

De repente me vi em Macondo, no quarto de Ursula Buendia, quando já cega, e sabia de tudo, onde tudo estava... E pra lembrar Cem anos de solidão, Lembrei-me, óbvio, de GGM, e não foi à toa. A tua poesia detalhada e nostálgica, Leo, transpira algo do grande mestre. Parabens! Dissestes, muito bem, a que viestes! []'s

PatitaM disse...

"e até parece que esta droga de mundo é um lugarzinho onde bem vale viver, no final das contas..."

Huuunf! Entenda isso como um suspiro... E não é a primeira vez que o faço, porque não é a primeira vez que leio suas lembranças.

Bom ter o que lembrar! E como já conversamos, é tudo uma questão de observação...do observar a vida, olhando para todos os cantos, ao menos por um tempo, nem que seja no são joão...

Feliz por tever por aqui, Fuinho!

Ah! Mel manda lembranças pra King!!!

Mary disse...

Léo, quando li seu texto fiz a mesma ligação que o Múcio fez... Seu jeito detalhado e nostálgico me fez lembrar do jeito do Gabito(nosso amigo íntimo!). rsrs.. E quando vim aqui comentar, o Múcio fala antes de mim o que eu ia falar!!! Poooorra! :P
Enfim, seu texto tá ótimo! Você tem futuro! risos.. Já recebeu até 5 estrelas aí ó!!! Tá bem!
Beijoss! ;)

Leonardo Caldas disse...

poxa... sabe o que parece isso aqui? um bar temático qualquer (daqueles no estilo do de Friends, que eu sempre achei tão legal), desses nos quais a gente entra, e toma o primeiro chope... e vão chegando os primeiros amigos do trampo... e vai chegando mais gente... e mais chope... e alguém começa a cantarolar uma bobagem qualquer bem baixinho... e quando se percebe já se está bêbado; e quando se nota, já é todo mundo cantando! putz... gostoso pacas isso. :)

me desculpo mais uma vez com todo mundo (a pati e a marinazinha provavelmente já comentaram) pelo sumiço inicial... sem computador em que escrever sou meio eu... a inspiração vai embora, e não fica nada... mas assim... tô aqui... ainda quero tentar escrever alguma coisa no estilo "oi, este sou eu"... e viajar no que todo mundo anda escrevendo. tô relendo tudo agora. e tô gostando... percebendo estilos... realmente admirável essa iniciativa, gente.

Anônimo disse...

Very cool design! Useful information. Go on! » »