sábado, julho 23, 2005

Um caso de amor

Puta que pariu, véio! Acelera a porra desse carro.

Perdão pelos palavrões. Mas não se passa impunemente pela engenharia. Mas isso é só um aparte.

Comecei esse texto assistindo ao treino de Fórmula 1 essa manhã, no exato momento em que Rubens Barrichello entrava na pista. Pensei então, por que não falar sobre minha paixões?

Eu sou um bicho esquisito, confesso. Tenho gostos estranhos, por vezes exóticos. Eu gosto de futebol, Fórmula 1 e buraco.

Quando criança, costumava passar os finais de semana na casa de minha bisavó, no interior do estado. Na maioria das vezes, eu era a única criança lá. Sobrou-me então os programas de adulto. Mas era uma delícia. Na casa de minha bisavó, ou bivó, todo dia era dia de festa. Talvez hoje, aos 26 anos, eu não visse dessa forma. Mas aos olhos sempre brilhantes de uma criança tudo pode ser farra.

Aos sábados, tudo era mais pro sossego. Eu, sempre apegada às letras, passava o dia inteiro a devorar avidamente tudo o que encontrasse. De jornal velho à aqueles encartes que se distribui aos domingos na missa. Sagrado também era dar uma passada na casa de meu tio pra comer dindim (ou sacolé, como queiram), principalmente de coco. Nunca mais encontrei outro igual ao que a esposa dele fazia.

Mas quando o domingo chegava, era uma algazarra só. Pela manhã, feira. Alguém conhece feira do interior? Não sabem o que estão perdendo. Tudo o que se possa imaginar você encontra na feira. Nas bancas ou no chão. Bonecas de um cabelo tão loiro que faria inveja à Barbie. Pomadas que curam de reumatismo à impotência. Lamparinas de folhas de flandres ou de latas vazias de óleo de cozinha, que de tão coloridas pareciam pintadas. Panelas de barro de todos os tamanhos, inclusive miniaturas para as meninas brincarem de casinha. Roupas de chita. Chinelos de couro. Chapéu de vaqueiro. Patos, galinhas, bodes, carneiros. Jumentos e suas carroças. Homens e mulheres com sua simplicidade de quem só vai à cidade 1 vez por semana. Sacas e sacas de milho, arroz e feijão. Carnes a curtir no sal e sol. Livretos da autêntica literatura de cordel sertaneja. Muito melhor que qualquer shopping.

Mas a feira só começava para nós depois da corrida de Fórmula 1. A família se reunia inteira em frente a TV para torcer pelos brasileiros. Homem, menino. Menina, mulher. Primeiro Nelson Piquet. Depois Ayrton Senna. Aí a paixão nasceu. Passados mais de 20 anos, ela resistiu ao tempo e à morte de um ídolo.

Ao meio-dia todos se encontravam em volta da mesa. Comida simples, mas com um sabor inigualável. Sabor de afeto. Quase sempre galinha cozida. Mas não dessas que você compra congelada no supermercado. A galinha era criada no quintal, alimentada com milho e abatida em casa. Pescoço quebrado. Água fervente para tirar as penas. Mãos habilidosas para limpar a carne. E a sobremesa? Doce de leite e goiabada misturados em proporções iguais. Tudo feito em casa.

Uma hora mais tarde, a família voltava a se reunir em torno da mesa. Dessa vez para o buraco. Sagrado em todos os domingos do ano, exceto no domingo de Páscoa. Os adultos se revezavam a tarde inteira. Eu dava voltas e voltas na mesa tentando aprender aquele jogo magnífico que tanto instigava minha família. Aprendi. Mas nunca fui tão brilhante quanto qualquer um deles.

As 15:00 h em ponto o jogo era interrompido. Pausa para o café, hoje coffeebreak. Café (óbvio), queijo, bolo, pão, bolachas. Um cheirinho de café fresco está na minha memória até hoje, quando a gente não tem mais tempo para um cafezinho no meio da tarde. Em seguida, o jogo era retomado.

As 16:00 h, aqueles que não estavam jogando se encontravam na frente da tv numa barulhenta confraria para assistir ao futebol. E eu me juntava a eles. Vozes exaltadas. Xingamentos impublicáveis ao árbitro. Bate boca entre torcedores de times adversários. Pura paixão. Nunca consegui me curar desse vício.

As 18:00 h tudo se encerrava, afinal era domingo. Todos precisavam se preparar para a missa. E eu voltava para minha casa.

E assim se passaram muitos dos bons anos de minha infância. Bivó morreu em 85. Minha tia em 93. Ninguém jogou mais. As coisas nunca mais foram as mesmas. Ou eu nunca mais fui a mesma. Tive que crescer.

Esse texto era pra falar sobre minhas paixões. E acabei me perdendo numa confusão de sentimentos. Numa saudade que nunca finda. Numa avalanche de memórias. Num turbilhão de bons momentos.

4 comentários:

PatitaM disse...

Aqui pelas minhas bandas, sacolé é geladinho... apelido de doce de criança muda, menos o bom sabor, que segue em qualquer lugar!

Lembrei dos meus avós...saudade do meu avô que já se foi e da minha avó, que foi, ainda estando aqui!

Saudade boa é sempre bem vinda!

Beeeijo!!!

Múcio Góes disse...

Saudade saudavel... Regredi uns anos junto às suas letras, Ercilia, tbm vivi dessas passagens, nasci e morei no interior um bom tempo... adorei, poesia e saudades de mãos dadas pela feira... []'s

Anônimo disse...

Estava lendo o seu texto e pensei: será que é mais um texto de algum menino nostálgico? Até que muito tempo depois estava lá em algum lugar EU MESMA.. então levei um choque. Gostei do seu texto, confesso que achei fraquinho, mas gostei.

Classificação: 2 estrelas

Mary disse...

Lilica,
Lendo seu texto deu saudade de uma infância que eu não vivi... Sempre fui de cidade grande... Belas lembranças... Beijos!