sábado, agosto 06, 2005

Ela que não acredita mais no amor

Um simples gesto – um suave deslizar de mão por suas costas – faz todos os pêlos do seu corpo se arrepiarem. Por esse gesto ela espera dias, semanas até. São as migalhas de uma relação – tudo a que ela têm direito. E tem sido assim há anos.

Era uma noite de quinta-feira quando eles se encontraram. Seu dia tinha sido terrível até então. Acordou atrasada, pegou engarrafamento até o escritório. Brigou com o chefe. Quebrou uma unha. Saiu da dieta pra tentar relaxar e depois se sentiu culpada por isso. As sandálias novas e caríssimas faziam calos horríveis. Recebeu a fatura do cartão de crédito. A menstruação chegou antes da hora trazendo consigo as famigeradas cólicas. Ao fim do dia, decidiu se dar um presente. Decidiu que merecia um cineminha com pipoca e um chopp na saída.

E assim foi. Dirigiu até o shopping. Parou diante dos cartazes no cinema.

Escolhido o filme (suspense policial, pra variar), comprados o ingresso e a pipoca, caminhou até a porta da sala 6. Uma pequena fila, a sala ainda não fora aberta. A sua frente, um jovem casal de namorados beijava-se apaixonadamente, mantendo as mãos entrelaçadas. Ah! A paixão dos jovens. A paixão daqueles que ainda não descobriram a traição vil e impiedosa, o desprezo, a indiferença, pensou enquanto sorvia um gole do refrigerante light pra disfarçar a inveja que sentia.


Do alto dos seus muitos 26 anos, não acreditava mais no amor, mas ainda esperava por ele.


Um pouco mais a sua frente, um belo homem com cabeleira levemente grisalha a observava com olhos vorazes. Olhos de predador ao avistar uma presa em potencial. Observava cada detalhe do seu corpo. As pernas torneadas, fortes e roliças, como ele gosta. Pés delicados sobre saltos de 5 cm, apesar de não precisar deles. Alta e elegante, ela tinha a postura de uma bailarina ao entrar no palco. Traços fortes, mas ao mesmo tempo suaves. Seu rosto parecia saído de uma tela antiga. Os olhos poderiam guiá-lo à perdição... Mas ela ainda não o vira.

As portas do cinema se abrem e eles caminham em direção a seus lugares. Ele retarda o passo, fazendo-a andar a sua frente. Observa atentamente o suave balançar de seus quadris e o movimentos de suas belas pernas a se equilibrarem sobre os saltos. A palpitação e a respiração ofegante já denunciavam suas intenções. Ela acomoda-se em uma poltrona e cruza as pernas, revelando uma curva nas coxas ainda desconhecidas. Foi fatal. A última gota d’água a transbordar seu corpo cheio de desejo.

Senta-se, deixando uma poltrona vazia ente eles. Daquela posição, a visão que ele tinha era ainda mais surpreendente. Através da blusa fina podia claramente vislumbrar o sutiã rendado e as curvas e contornos de seus belos seios. Ainda bem que não apagaram as luzes, pensou.

Estudava-a sutilmente, tentando descobrir qual seria a melhor estratégia. Puxou do bolso os chicletes de menta sem açúcar que sempre leva consigo. Respirou fundo, mordeu um chiclete e decidiu agir. Ofereceu-lhe um. Educadamente ela recusa. Ele insiste, ela aceita. Pergunta se ela sabe algo sobre o filme, se já tinha lido alguma crítica a respeito. Não, não li nada a respeito, responde. E abre os lábios em um sorriso. Era tudo de que ele precisava. Ousou-se sentar ao seu lado. Ela gostou de ter a atenção dele. Há tempos não era paquerada, principalmente por alguém tão charmoso.

As luzes se apagam. O filme está para começar. Levemente o braço forte dele toca o seu. Sente seu corpo estremecer. É a tal da química de que todos falam mas ninguém explica, pensou. O seu perfume invade as narinas do macho caçador e seu instinto desperta ainda mais forte. Posiciona o braço por trás do corpo da fêmea vistosa, segura-lhe a nuca e a traz pra junto dele. Invade-lhe a boca com seu desejo latente e ela se entrega aos seus apelos. Cada vez mais os corpos se juntam, confundem-se num só. Mas o cinema está cheio e eles precisam se conter.

10 minutos de filme. Deixam o cinema, examinam o saguão. Vazio, todos os filmes já começaram. Seguem até o banheiro. Vamos para o feminino, diz ela, lá os boxes são mais amplos. E lá se entregam a esse desejo inesperado para uma noite de quinta-feira. São dois animais se rendendo aos seus apelos mais primitivos. Lá, se beijam e se amam como se fosse a última vez, com a avidez de quem implora pelos últimos instantes de suas vidas.

E assim foi por uma semana inteira. Na casa dela, na cama, no sofá, na mesa, no chão. No motel, na praia, no carro. Ligações no meio da tarde: Quero te ver. Preciso te ver. Quero fazer amor com você.

Na sexta-feira seguinte, ao se despedirem depois de um sexo maravilhoso, ele diz “Minha esposa chega amanhã com as crianças das férias. Tudo vai ser mais difícil agora.”

Desorientada, pega seu carro e dirige até sua casa. Entra. Serve-se de um bom copo de vinho tinto e se entrega ao sofá convidativo, onde se amaram na noite passada. Não sabe o que fazer. Não consegue mais viver sem ele. Por toda sua casa, o cheiro dele está impregnado. O cheiro do seu sexo, do seu gozo. E ela se pergunta como isso pode acontecer.

Por 3 dias ela não atende o telefone. Não vai ao trabalho na segunda. Sai para uma volta na praia no fim de tarde. Precisa respirar, pensar, ver o mar. Está decidida a não vê-lo nunca mais. Como irá resistir não sabe. Mas sabe que não pode estar mais com ele. Ao voltar pra casa, ele a espera na porta com os mesmos olhares vorazes da primeira vez em que se viram.

Ele se aproxima, ela se afasta. Ele insiste, ela fraqueja. Segura sua mão, ela se entrega um pouco mais. Beija-lhe a boca e ela já não resiste mais. Já está novamente em seus braços. Já estão novamente no sofá se amando como dois animais que são.

E lá se vão 4 anos. 4 anos sem promessas não cumpridas. Sem cobranças impertinentes. 4 anos de telefonemas no meio da tarde. Quero te ver. Preciso te ver. Quero fazer amor com você. Hoje ela sabe o que isso significa. Consegui escapar. Temos 2 horas. Preciso te comer.

4 anos de migalhas, meias-verdades, entrega pela metade. Muito desejo, muito tesão, muito prazer, muitas loucuras.

Do alto dos seus muitos 30 anos, não acredita mais no amor, mas ainda espera por ele.

3 comentários:

André disse...

Se é para ser morno... Que não seja! Tem que ser quente do início ao fim... O amor aquece... Não esmorece! =*

carlos peba disse...

Ei Ercilia. É uma crônica ou um conto erótico? rssss

Muito boa a crônica... O ruim deve ter sido, pro pessoal que limpa o WC do cinema. ;)... é onda

beijãooo

Anônimo disse...

Excellent, love it! »