quarta-feira, agosto 17, 2005

La Belle de Jour

Lembro-me com clareza de quando a vi pela primeira, e única vez, sentada no velho píer de madeira rústica da marina da Praia Velha. Tinha nos olhos a calma diáfana de quem vagueia por sonhos alheios, contemplava o horizonte como se buscasse verdades na mais ínfima parte daquele mar colossal que à sua frente deitava ondas como o serviçal mais obediente. Dessas ondas respingos lhe chegavam incólumes aos pés, como se implorassem sua atenção, e em vão caíam por terra. Parei por um tempo despercebido quase que ao seu lado. Nada que eu fizesse a tiraria daquele êxtase contemplativo, e que naturalmente não vinha das coisas vistas, mas, das sentidas. Tentei desviar os olhos daquela verdadeira graça, e foi uma missão difícil; confesso. Entre admirá-la e tentar desvendar o motivo da sua inércia, optei pela primeira. “Inefável visão!”, e assim definiria tudo numa frase. Mas a minha visão, como que automaticamente, enviava palavras à boca que me saíam em murmúrios, apesar de que o seu silêncio seria inquebrantável àquela altura. Resmungava elogios surdos em sua direção, não por atitude de galanteios, não, não cabiam tais coisas ali. Era mesmo um descontrole endossado pela emoção de vê-la.
Morena de uma cor que não se descreve; nem jambo, muito menos canela; era morena, uniformemente bela. Os cabelos eram a única coisa que tirava da bela a idéia de estátua, pois esvoaçavam ao sabor do vento. Eram cacheados como sem rumo, um emaranhado de beleza ímpar em tom castanho. Seu rosto taciturno e belo tinha o formato arredondado das musas históricas; ornado por negros olhos amendoados e uma boca cujos lábios eram um convite ao deleite. As pernas dobradas se guardavam entre os braços e distraidamente uma das mãos acariciava um dos pés, num breve momento em que ousou mover-se, além das melenas. Seu colo era terno e doce, como se preciso fosse provar que doçura existiria ali. Creio que mais de uma hora se passou sem que me percebesse, até que a primeira estrela surgiu no céu como um relógio a badalar na meia-noite, e a moça deu por mim ao seu lado numa distância segura. Como no despertar de um sono bom ela percebeu que o mundo era muito mais que aquilo que secretamente estava a deleitar. Sorriu-me discretamente como a me achar por bobo, e nem sequer imaginar o quão prazeroso seria o “filme” a que assistia em sua solidão mental. E seu sorriso me foi então a última mostra de que a beleza é uma ciência sem limites, e que todos somos seus desbravadores, pois querendo ou não, estamos sempre elastecendo suas extensões ao encontrar mulheres assim. Levantou-se, e quase que sem dar ao chão o prazer de por ela ser tocado saiu, numa espécie de levitação etérea, se foi sem deixar culpas. Só saudades...

6 comentários:

PatitaM disse...

Que eu gosto muito dos seus textos, você já sabe... mas esse me tirou o fôlego!
Consegui enxergar cada parte da sua morena e em muitos momentos me imaginei no lugar dela, não pela beleza, mas por estar entregue ao seu mundo sendo velada pelo mar.
A praia calma e solitária é sempre um delicioso divã.
Uma boba, essa menina morena por ter percebido seus olhos tão tarde! ;P rsrsrs...

Fica bem, menino!

beijo!

Mary disse...

Humm... texto gostoso de ler...

Momentos gostosos de se (vi)ver...


Belíssimo!

Beijos ;)

Leonardo Caldas disse...

é... o múcio tem uma característica - mais que qualquer um de nós - que me admira... os textos são praticamente palpáveis! se ele descreve uma casa, quase se consegue imaginar a textura das paredes... se é uma mulher, fecho os olhos e a vejo em minha frente... isso é um dom, meu amigo! adoro as coisas que você escreve!

Ercília disse...

Ê saudades, Múcio...

Vinicius disse...

a leveza do seu texto é tao cativante quanto empolgante. cada nova palavra se soma a anterior, formando alguma coisa que eu nao sei dizer, porque nao conheco todas as palavras.

comentar seus textos é ter que reaprender o portugues.

So posso dizer: parabens

Aline disse...

Belo!
Então... como disse Vinícius, eu tb não conheço todas as palavras mas as que tenho são para tão somente elogiar.
Vc transforma teu leitor em participante da tua obra e isso é tão bom que nos deixa emocionados.

Beijinho