segunda-feira, agosto 01, 2005

Nessa vida tudo é passageiro...

Faço parte de uma interessante estatística... a dos brasileiros desabonados que circulam diariamente país afora conduzidos por nossa eficiente frota de coletivos.

Pois bem... há algum tempo, numa destas linhas mais populares de coletivos em que os motoristas desenvolvem com mais rigor toda uma técnica de "acomodação" de passageiros com suaves partidas e freadas, notei uma movimentação suspeita no corredor. No meio da confusão de corpos, um sujeito tirava descaradamente sem ser percebido todos os documentos de uma mulher. O interessante é que ele ainda olhava pra mim e sorria! Bom cidadão que sou, tentei fazer por meio de sinais a moça perceber o que acontecia. E não é que a mulher - saída provavelmente de algum sonho mau do Dante - pensou que eu a estivesse cantando?? E obviamente ferida em sua honradez, virou-me as costas, facilitando ainda mais o trabalho do marginal. O sujeito tirou o que tinha de tirar (ainda dando-se ao trabalho de pôr o resto de volta), e saiu tranquilamente quando chegou sua parada. Bom tempo depois, quando finalmente deram por conta do assalto, vieram em sequência: o choro... os desmaios... e finalmente, a paradinha no módulo policial, para registro da queixa e animação dos secundaristas, que parecem viver pra esses momentos...

Falar em módulo policial, como esquecer esta que já é uma verdadeira instituição para nós, que alimentamos os aspirantes a crônistas e contadores de casos da vida urbana diária? Ah, as revistas (abordagens) policiais... se bem que podem bem ser abordagens no resto do país, por que aqui em minha cidade são, e acredito que vão sempre ser, apelidadas carinhosamente de "baculejos". Eu próprio já passei pelo dissabor de ser abordado por um policial com um detector de metais uma vez... Geek assumido que sou, levava nas mãos disquetes, e nos disquetes a vida (bons tempos aqueles, em que geeks saiam à rua com disquetes, e não pen drivers). Bom... imaginaram o estrago que um detector de metais faria a minha caixa de disquetes, não? Falei, de forma meio irrefletida, que ele afastasse aquilo de minha caixa, o que foi motivo suficiente pra que vários me cercassem, com o jeito entre curioso e irritado que todo PM tem, indagando o que afinal eu levava ali (terrorismo ainda não era moda então) que não poderia passar pelo crivo da "autoridade", ali representada por eles. Explicações dadas, ânimos acalmados, autoridade satisfeita, e disquetes salvos.

Só quem já precisou, num dos ensolarados e quentes inícios de tarde de verão de minha Salvador, pegar um coletivo lotado sabe do que estou falando... Você vai entrando e já se depara com um cobrador cujo grau maior de eloquência é grunhir alguma coisa, caso você tenha a falta de sorte de precisar de uma informação qualquer dele. A partir daí, a coisa só piora. Uma olhadela rápida no corredor já mostra a sucursal do inferno. É notória também a paradinha rápida na catraca, com o sentido duplo de dar uma respirada para o que vem pela frente, e também de fazer rápidos cálculos mentais das melhores trajetórias entre mochilas, sacolas, cestos e vasilhames (ah, não? tome uma das linhas suburbanas e me diga se a depender do horário vai ou não ter uma baiana de acarajé ou feirante com seu produto de trabalho espalhado pelo coletivo).

Mas quer saber? Apesar de tudo, os coletivos tem lá seu atrativo... explico: onde mais se poderia encontrar tipos mais exóticos? Os velhinhos brigões... os muambeiros... a menina bonita de decote generoso... os ambulantes de todos os tipos... os garotos vendedores de "ralis"... os malabaristas (sim, estes últimos já expandem timidamente para dentro dos ônibus as fronteiras de seus palcos de rua), pedintes, devotos de krishna e tocadores de todo e qualquer tipo de instrumento imaginado pelo homem... é... onde mais juntar toda essa gente, de tão diferentes origens? Ah... tinha de ser no coletivo; este aglutinador de almas!!

6 comentários:

PatitaM disse...

Aglutinador de almas... só você Léo!

Como rendem essas histórias "busulescas", hein?

Adorei o texto! E rí muito com cada ponto que imaginei sendo real!

Beijo!!!

Mary disse...

Gosto do jeito que escreves, coisaboba. ;)
Muitos detalhes... Que deixam as palavras e os momentos tão reais...
Muito bom!
Beijos ;)

André disse...

Grande Leo, muito bom o texto... Minha mãe já foi assaltada 5 vezes em alternativos da vida... Mas ela se recuas a parar de andar em tal! ¬¬ AI AI AI. Dai-me FÉ!

Bonito texto, bem produzido!

[]'s

Renata disse...

Aqui no Rio é assim, ó...

Boa noite, senhores passageiros. Desculpa incomodar o silêncio da viagem, mas venho aqui trazer uma deliciosa promoção: cinco bananadas por apenas um real. Àqueles que puderem ajudar, eu agradeço; àqueles que nào puderem, eu agradeço da mesma forma. Desde já meu muito obrigado e uma boa noite a todos.

Até decorei! ;)

Ercília disse...

Quantas histórias temos pra contar dos busões da vida, hem? Eu venho escrevendo as minhas de dentro do ônibus. É como se a inspiração viajasse ali, no banco ao lado. A letra é torta e tremida, mas o resultado é compensador.

Gostei muitíssimo, principalmente do "aglutinador de almas".

Grande beijo.

Anônimo disse...

Very cool design! Useful information. Go on! » »