quinta-feira, agosto 11, 2005

Vôinho.

Naqueles tempos as pessoas eram mais cruas, para as coisas boas e ruins.
Meu tataravô se chamava Pedro. “Vô” Pedro. Percorria de tropa norte, nordeste, centro-oeste do fazendão que era o Brasil naquela época. Meu bisavô foi criado na tropa – Vôinho. O que tem noventa e seis anos hoje.
De vô Pedro até Vôinho foi se juntando uns caraminguás, sempre com o costume de economia e simplicidade.
Já minha bisavó, Alda, era filha de comerciantes. Família burguesa rica de Conquista. Berço de ouro, escola de freira, vestes de seda.
Eis que Vôinho grande administrador, sempre com autoridade entre os homens e na lida com o gado, líder da tropa, começou a juntar um bom patrimônio, sem nunca largar o costume simples. Começou a ter negócios com a família de vó Alda, que fez gosto do casamento dos dois.
Para morar com vó Alda, Vôinho comprou uma fazenda em Itapetinga. Contraído o matrimônio, mudaram-se para lá.
A casa foi feita de madeira e argila dura, na frente de uma pedra para economizar o passeio, e todo o dinheiro que Vôinho fazia, reinvestia em boi, e saia com a tropa pelo Brasil afora. Dois filhos – vó Maria e tio Alcides, e oito anos de casamento.
Conta vó Maria que os pratos eram de barro, e com o uso, furavam. Vôinho não atendia as queixas de vó Alda para comprar louça, e ensinava como botar a farinha no fundo do prato primeiro, e depois o feijão, que não escapava.
Depois desses oito anos, quando num certo dia ele estava viajando com a tropa, vó Alda catou tio Alcides e foi embora, e deixou minha avó sozinha na fazenda, com seis anos de idade. Ela chorou um dia e uma noite, até que uns vaqueiros da fazenda a encontraram, e dela cuidaram até o retorno de Vôinho.
A primeira providência de Vôinho foi correr na cidade, buscar tio Alcides e trazer para casa, e desde então não se menciona nem o nome de minha bisavó na sua frente. Criou os dois com simplicidade, mas em nenhum momento faltou de comer, vestir, estudo, exemplo e amor.
Tanto que na fazenda dele nunca se pôde usar esporas, nunca se sacrificou um boi, tem criação de gatos, de estimação, usam se cercas de madeira, e não arame farpado. Hoje quem cuida de lá, sem cobrar nada, é um secretário municipal de uma cidade vizinha, que ele já ajudou muito antigamente. Amizades de antigamente.
Eu lembro na casa de Conquista, há dez, vinte anos, dele cortando cana para mim e para meus primos, já com oitenta, oitenta e tantos anos. Dava cada pulo para pegar galinhas no quintal que muito homem de vinte anos não pegava. Até cinco anos atrás, morava só, dirigia um Uno vermelho, e comia feijão com banha todo dia.
A doença apertou e agora ele tem enfermeiras acompanhando, uma cama médica, cadeira de rodas e precisa de auxílio para as coisas mais essenciais. Aliás, graças à sua economia, hoje ele pode ter isso tudo.
Há quem considere a sua lucidez ruim, pois ele se sente entristecido pela sua situação. Eu acho que quem perde a lucidez, de certa forma, fica meio morto.
Se eu tivesse talento para isso, a história da família de Conquista dava um livro. Ia ficar mais intrincado que Cem Anos de Solidão.
Mas no livro, como cá, são ciclos, e o da vida, infelizmente, é o mais implacável.

[]´s

6 comentários:

Adriano disse...

É, velho...
Não conhecia esse seu lado de historiador, e uma história romântica, por sinal!
Concordo com você. Como disse Descartes, "penso, logo existo". Por isso a faculdade de raciocinar é a mais importante num ser humano.
Este ciclo da vida é tenebroso, e nós não podemos esquecer que também estamos nele!
Desejo melhoras a seu "Voinho". Homem de fibra! Homens como ele fazem tanta falta nos dias de hoje!
Ele não costumava torrar castanhas pra vocês, também, não? Meu avô, quando tinha roça, sempre fazia isso.
Abração!

Leila disse...

sua família é, de verdade, uma comédia.... as duas...

Múcio Góes disse...

"se eu tivesse talento..." O bom texto nos leva junto com ele, e este o fez. Pude visualizar tudo, como descrito. Pureza, poesia, beleza...

[]´s

PatriciaM disse...

Engraçado como lendo seu texto, enxerguei as mesmas lembranças de meu pai.
Papaí, era assim que ele chamava seu bisavô, a quem tem profunda admiração, muitas vezes descritas nos seus textos saudosos. É, ele como eu,( ou eu como ele), costuma entregar seu coração as letras.

Quanto a lucidez... não teria felicidade maior, ser reconhecida ainda mais uma vez pela minha avó.


Maravilhosas lembranças!

Use o talento dos seus textos!

Beijo!

Anônimo disse...

Excellent, love it! »

Anônimo disse...

Excellent, love it! » »