quinta-feira, setembro 08, 2005

Dia escuro.















Éramos dois no carro e eu me justificava ali para mim mesmo, em pensamento: eu sempre disse que gostava de viajar de carro, e estava morando pertotanto tempo mas nunca ia em São Paulo. No fundo, cansado, não queria ir.

O convite da minha ex, no carro comigo, havia sido para um grande concerto de rock, de uma banda internacional que ela gostava muito. Que eu também gostava, ainda que nem tanto.
A chegada em São Paulo se dava por uma serra, coalhada por enormes vias elevadas, de grande calibre, fortemente iluminadas, que se estendiam por vários quilômetros sem tocar o chão. Uma cena completamente fascinante, temperada ainda mais pelo imberbe início de clarear do dia. Haviam milhares de carros em volta, apesar do horário. Alguns, aos poucos, iam desligando os faróis.
Saímos da auto-estrada onde imaginávamos ser conveniente, e fomos parar num lugarejo digno de cidade de interior. Pequeno, poucas casas em volta, muito mato, morros, mal iluminado. As nuvens haviam coberto o céu, e o dia continuava escuro, apesar de avançado o horário.
O frio havia congelado uma fina camada de água sobre aquela ladeira, onde eu tentava parar num bar para tomar uma cerveja, paraengrenar”. O carro deslizou e deu uma batida de leve no da frente. Dei uma , olhei, nada. Ninguém reclamou. Deixei para .
Tomamos rapidamente a cerveja, gelada, e voltamos ao nosso caminho. Estávamos perdidos. Entrávamos em ruas cada vez menores, passávamos por becos sem saída, lugares sem casas, sombrios, e não conseguíamos mais voltar para a rua maior onde estava o bar, para onde haviam casas, muito menos para a estrada.
O caminho era escuro e deserto, e nossas idas e vindas, eventualmente passávamos por um mendigo, doente das pernas, que andava de quatro. Andava rápido, de quatro, praticamente correndo, com sua juventude feia sob suas maltrapilhas e escuras vestes, e a cena era tão bestial que causava medo.
As ruas além de estreitas eram cada vez mais enlameadas, alagadiças, até que não distinguíamos mais se estávamos andando em ruas ou fora delas. O pálio não agüentava aquele terreno, o combustível estava prestes a acabar, e a escuridão do lugar não vinha do céu nublado: a terra era preta, a vegetação era fechada nos entornos, fazendo sombra das árvores velhas e cheias de limo. De quando em vez, mesmo que não passássemos por aquelas ruas, passava ao nosso lado, indo para caminho diverso, o mendigo em sua corrida bizarra. A respiração descompassava, com o desejo na garganta de fugir dali.
O carro atolou e saímos nós três com medo. Encontramos perto selado um cavalo, no qual imediatamente subimos, não sem preocupação de que o dono aparecesse, e não sem sentir o roubo.
O cavalo agüentou o peso de três, mas não sem visível esforço. Passamos um pouco à frente e encontramos um lugar de charco, com a terra mais clara, e onde haviam ondas, parecendo um mar calmo. Pela maior clareza, fomos por ali, até perceber quanto mais estávamos perdidos, e que não havia nada em volta mais além da estranha praia, para qualquer lado que se olhasse. Até o horizonte.
O mendigo, algumas vezes, passava ao largo, sempre a uma distância razoável, que eu me questionava cada vez mais se era a mesma, ou se cada vez menor. Sua expressão, dessa distância, era inumana.
Repentinamente surgiram, vindo em direção ao cavalo, três animais parecidos com hienas, de aspecto cinzento e olhar carniceiro. Leves, corriam pelo lamaçal com mais desenvoltura que nossa besta, apesar da menor velocidade.
Seu número, em três, fez me lembrar que éramos apenas eu e minha ex no carro, e eu não conseguia lembrar quem era a terceira pessoa que estava conosco no cavalo. Eu guiava o animal, minha namorada abraçada comigo, o terceiro seguro nela.
Os bichoshienas” davam novas investidas, e o cavalo mostrava sinais de esgotamento, o mendigo aparecia às vezes parado, olhando, numa posição contrária, com a barriga para cima e o pescoço virado até nós. O cavalo tropeçava cada vez mais, cada vez mais profundos iam ficando os buracos, cheios de água, cada vez maiores as ondas, e os animais conseguiam se aproximar tanto que podíamos ouvir sua respiração, descompassada.
O cavalo tropeçou ao tentar subir numa parte de areia foraágua. Pendeu demais para a direita, e eu sentia o peso dos braços atrás de mim me puxando para o chão.

[]´s

(Não me perguntem por final. Nesse ponto, acordei, agitado.)

9 comentários:

Nana disse...

Puta-que-pariu, que aflição. Tomara que meus sonhos não se inspirem...

leila disse...

poxa.... pensei que vc ia inventar um final depois que eu disse que "faltava alguma coisa"... tô até hj querendo saber...hehehe..

Silvia Whatever disse...

Que medo, credo. Você tá precisando ouvir "Blue Skies". :)

beijo,

Adriano disse...

E quem não acordaria de um pesadelo desses, com um queda providencial como essa?! hehehe.
Quando você disse que os três saíram do carro, eu me questinei: "Não eram somente dois?". Você e sua imaginação, hein, rapaz! Abração!

filho disse...

sonhar com ex dá sempre merda.
abçs.

Múcio Góes disse...

Sonhar com ex é sonho, ou "pesadeiro"? Não sei pq, mas senti ser um sonho logo no início, mendigos assim não são desse mundo. :)

[]´s

Mary disse...

Que coisa estranha! Nã!

;P~

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