sábado, setembro 24, 2005

A Rita (ou ao Chico)


A Rita levou meu sorriso no sorriso dela. Levou minha alegria. Meus bons-dias, boas-tardes, boas-noites. Meu assunto. Minha razão. Meus desejos. E meus sonhos, levou junto com ela. E o que me é de direito, arrancou-me do peito. Arrancou-me o que era mais precioso e levou junto com ela: minha vontade de amar. E tem mais, levou minha disposição de se entregar ao amor.


Levou seu retrato. O retrato que tirei uma noite. Numa daquelas noites em que se espera que tudo dure para sempre e o tempo parece parar só para o beijo ter sabor de infinito. O vestido que lhe dei no seu aniversário, seu trapo, como ela gostava de dizer, também se foi. Naquele vestido estampadinho de florzinhas e cheio de babados, ela parecia uma menina brincando no parquinho. E ela sabia como isso me deixava louco e ela sabia como me sorrir. Ao chegar em minha casa com suas malas, suas tralhas, sua bagagem, sua vida, uma coisinha pequenina me chamou atenção. Uma lancheira colorida que usara no jardim de infância. Dentro dela, uma garrafinha pra levar suco, uma toalhinha com carinha de gato e seu prato, com a figura do Mickey já desbotando. Assim era minha criança, menina, mulher. Também levou a lancheira quando me esqueceu em casa.


Que papel eu passei chorando no canto do quarto onde guardava meus tesouros... Fui procurar seus vestígios em todos os lugares da casa onde ela passava. E onde ela passava deixava sua marca de mente inquieta: sua bagunça, sua desordem, seu caos. Ao procurar seu cheiro pela casa senti falta de uma imagem de São Francisco. Ganhei-a aos 11 anos, depois da morte de meu cachorro. Chorei por dias e dias. Chorei até o momento que minha mãe chegou em casa segurando em uma mão, um cachorro, e trazendo, na outra, a imagem de São Francisco. Ela me contou tudo sobre Seu Chico (assim que eu o chamo; mania de sagitariano de achar que é íntimo dos poderosos e divinos) e de como ele amara os animais e por isso tornou-se seu protetor. O cachorro ganhou o nome de Chico. Como Seu Chico que aprendi a amar. Como o Velho Chico que todo nordestino aprende a admirar desde cedo. Como o Chico (o Buarque) que tantas noites de amor embalou, junto com um bom disco de Noel que ganhei do meu melhor amigo quando tive minha primeira decepção amorosa. Isso ela também levou. Sempre foi encantada por um e por outro. Sempre disse que ambos eram fiéis retratos de minha alma, de tudo que eu sempre fora.


A Rita matou nosso amor. De vingança, ela disse. Vingança de quê, eu pergunto. Ela se cala, não sabe, não pode, não quer dizer. Vingança pelo tanto de amor que eu a dediquei? Pela minha devoção? Vai ver enjoou de ser amada. Ou matou, por vingança, a rotina que ela disse ter se apossado de nosso amor. Nem herança deixou. Eu esperava que ela tivesse esquecido, no fundo de uma gaveta qualquer, uma camisola, uma foto, um batom, um verso displicente num pedaço de papel despretensioso. Nada ficou.


Não levou um tostão porque não tinha não, eu bem poderia dizer. Mas a Rita nunca ligou pro meu dinheiro, nem quando ele faltava. Desde muito jovem aprendeu que manter sua independência era preciso. E desde muito jovem trabalhou e trabalhou. E nunca me pediu nada. Nem nos curtos períodos em que ficou desempregada. Grande mulher era minha Rita.


Mas causou perdas e danos. Perdas e danos irremediáveis à minha alma. Desaprendi como se ama, como se é amado, como se entregar com plenitude no corpo e na alma. Levou os meus planos. Meus pobres enganos. Meus erros, meus acertos. Meus encantos, meus desencantos. Os meus vinte anos de amor incondicional, e junto com ela levou o meu coração que lhe foi entregue numa tarde cinza de inverno, o que fazia seus olhos claros brilharem ainda mais com os poucos raios de sol que se via.


E além de tudo me deixou mudo um violão. Como poderia tocá-lo novamente sem a sua voz a me acompanhar? Sua voz é rouca, grave. Voz de quem sabe que é sexy. E de quem sabe como usá-la, junto com seu sorriso tímido ou sua gargalhada franca. Foi assim que a Rita me conquistou.


Foi assim que a Rita me deixou numa tarde quente de sábado do mês de dezembro de um ano qualquer.


A Rita levou meu sorriso no sorriso dela...

5 comentários:

Múcio Góes disse...

Mais uma segunda-feira no girar do calendário, mais uma, dessas, sem propósitos. Acordei tarde depois de uma noite em claro, por culpa de uma insônia que se apegou a mim nos últimos meses; eu não era assim. Abro este site e me deparo com Chico em prosa, por Ercília... Gosto das letras de Chico, a voz nem tanto, mas esse samba em especial mexe comigo, minha Rita levou muito mais... E lendo vc, Ercília, rememorei minhas perdas sem danos, pois oq que Rita levou me deixou lições.

Belo texto!

:*

Vinicius disse...

Algumas Ritas passaram em minha vida. As únicas coisas que não passam nunca são o meu amor pelo Chico e esses textos lindos que você escrever...

Mary disse...

Lindo lindo lindo!
Sem palavras!
Adorei o texto... ;)

;**

Anônimo disse...

Enjoyed a lot! » »

Anônimo disse...

Excellent, love it! celexa price blackberry 7230