domingo, setembro 11, 2005

“Solidão das noites sem graça dos quartos de hotel”

É hora do jantar, 19h:45m. E ele, no lobby do hotel, com seu notebook no colo apenas observa os outros comerem. Porque ele não tem fome. Não de comida, só de emoção.

Enquanto os outros comem ele vai tentando traduzir para o português a complexa língua dos seus sentimentos; língua esta que nem ele entende às vezes: quase nunca. Aliás, às vezes ele não sabe se às vezes leva crase. Mas ainda assim ele coloca. Melhor pecar por excesso que por omissão.

Já são 23h14minh de uma quinta-feira qualquer do mês de agosto. E ele lá, sentado no lobby vendo o mundo acontecer. Um lobby vazio, em suas dimensões arrogantes e coloridas. E ele, arrogante em suas dimensões, mas em branco e preto em seu conteúdo. Porque as cores definem os sentimentos e as estações do ano, as emoções. E em seu inverno siberiano, toda a sua atenção é voltada para aqueles que comem sozinhos. Porque ele sabe que nada é pior que estar sozinho em um hotel, com suas paredes frias e sorrisos indiferentes e falsos.

Alguns procuram a companhia cara das acompanhantes profissionais. Pois algumas mulheres sabem como fazer um homem esquecer o tamanho do seu vazio. Outros preferem a solidão gelada dos seus corpos. Prazer solitário ou lágrimas em frente ao espelho, para refletir toda a sua idiotice.

E dentro do quarto apenas a luz estroboscófica da televisão apresenta algum movimento e o som, quebra o silêncio de toda uma vida. Mas ele não presta atenção em nada, porque seus pensamentos e questionamentos ocupam todo o espaço da sua mente. Então ele acorda depois de uma noite mal dormida e se pergunta em que cidade está, ou quem vai encontrar. E o dia passa, e a solidão aumenta, porque a dor da solidão é proporcional ao tempo e à distância daqueles que ele gosta. E depois de quase um mês sozinho, ele começa a se questionar acerca dos seus sentimentos, da sua identidade e do tamanho do seu vazio.

Hoje ele se questiona sobre o que e quem preenche esse vazio constante em seu peito. E é chato constatar que, depois de um mês, existem lacunas que não são preenchíveis, pois ele nunca encontra uma correspondência entre o espaço que sobra de vazio e o que o completa.

E a sua constatação lhe traz frustração e tristeza: ou há ausência de seres em sua vida, ou excesso de vazio para um só coração.

E mais um dia passa. Mais um dia de trabalho numa capital fria, numa cidade estranha. E ele, frente a um banquete luxuoso de hotel, prefere saciar-se observando a solidão dos outros, pois sua fome é de entender seus sentimentos, motivo que lhe traz toda essa angústia, apesar dele ainda não ter percebido.


Título extraído da música “Quarto de Hotel” do Engenheiros do Hawaii.
Frase roubada da música “As vezes nunca”, da mesma banda.
Não, eu não estou ouvindo Engenheiros do Hawaii, mesmo que esteja aqui em Porto Alegre...

7 comentários:

Mary disse...

Belo texto, Vini...

Espero que volte logo p/ calor da Bahia... mesmo que a solidão vá junto...

;*


Bjos

Múcio Góes disse...

Nada mais frio que um quarto de hotel, nem as mentiras das mulheres que amam sem amor...

Grande, Vini!

Ps: esqueci de te dizer q adorei Fleetwood Mac, tenho escutado. :) Vlw!

[]´s

Vinicius disse...

Grande Múcio,

Hotel só é bom nas férias, sem compromissos profissionais. Ficar mais de uma semana (no meu caso, 6) é realmente um saco.

Cara se vc curte música, podemos trocar algumas figurinhas...

[]'s

Múcio Góes disse...

Na boa, vamo trocar sim, não sou expert, mas gosto de aprender. :)

muciogoes@hotmail.com (msn)

[]´s

Baiano disse...

Desse tema, tem uma música muito boa que é do Baden Powell. Chama-se Um Refém da Solidão.
Um sambinha gostoso, mas triste de se encolher.

[]´s

Anônimo disse...

Enjoyed a lot! » »

Anônimo disse...

Excellent, love it! »