quinta-feira, novembro 10, 2005

Monotonia.

O Homem de Senso de Humor Peculiar, cabisbaixo, andava arrastando os sapatos no chão da Cidade Cinzenta e Sem Graça. Como sempre, chovia - pouco.
As calçadas meio sujas, mas nem tanto, deslizavam sob os sapatos com uma resistência média, fazendo um ruído rouco, nem alto, nem baixo.
Ele olhava para o chão, olhava para o céu... Evitava olhar a qualquer altura ou direção em que fosse arriscado um cruzar de olhos com qualquer pessoa insossa, destas tantas que haviam na cidade.
Quando olhava para o céu cinzento, esperava no íntimo que tropeçasse em alguma coisa, ou pisasse num buraco. Quando olhava para o chão, talvez pudesse esbarrar em algo ou alguém vindo rápido, ou bater o topo em alguma coisa. Mas ele sabia que a Cidade Cinzenta e Sem Graça não tinha buracos e nem paralelepípedos soltos, nem gente correndo, nem nada tão fora do lugar para acertar-lhe o alto.
Entrou no seu carro, de cor fosca acinzentada, ligou o motor fraco e silencioso, e saiu pelo trânsito livre das ruas lentas de pista única. Olhava com um fundo de desejo para todos os cruzamentos, junções e curvas, acreditando que alguém pudesse se atrapalhar, ou vir um pouco rápido, e bater o carro nele. Já tinha praticamente um script, involuntariamente criado em seus momentos de tédio ao volante: sairia do carro e diria com olhar conclusivo: "O carro bateu?", numa expressão de inteligência. Por dentro estaria rindo sozinho, mais que o necessário, de tanta saudade que tinha de uma tirada burlesca.
Mas naquela cidade as ruas tinham radares de velocidade, as coisas não eram perto nem longe, as pessoas saíam num horário razoável, e a sinalização de trânsito era suficiente, em suas placas desbotadas.
O Homem de Senso de Humor Peculiar buscou sua namorada, que ele não amava mas estava acostumado, a Mulher de Saias no Joelho e Coque. Se adaptara à sua rotina.
Foram para seu apartamento no terceiro andar.
Jantaram feijão com arroz, fizeram sexo na posição papai-e-mamãe, uma vez. Ele gozou pouco, ela não gozou, mas disse que foi bom mesmo assim. Dormiram de pijama e meias, depois de passar Vick Vaporub.
O Homem de Senso de Humor Peculiar sonhou com quadros de natureza morta, acordou ao ouvir ao longe uma gaita de foles, olhou para o céu nublado e, num impulso de desespero, gritou pela janela: "VIDA!", e baixinho, arrematou "que caralho...". Mas não riu.
E ninguém pareceu ouvir, e a Mulher de Saias no Joelho e Coque o chamou para tomar seu café com leite e pão, enquanto ligava a tevê no jornal.

[]´s

6 comentários:

Gwen disse...

Um: eu adoro céu nublado e quadros de natureza morta.
Pq as pessoas sempre associam isso à melancolia e sentimentos/comportamentos afins?

Mas o texto é muito bom!
... principalmente a parte do vick vaporub, he he he

Nana disse...

Que coisa morna, dá vontade de chutar esse cara e essa mulher e dizer "acordem!"...que agonia!


Mas é o tipo de texto que eu gosto, porque causa alguma emoção.

Mary disse...

que tédio...
que caralho!

(e não estou rindo)

=|

=P

=*

Múcio Góes disse...

Simplesmente, do caralho!

[]´s

Ninha disse...

Dido, incrível como vc podde ter pena de um cara que mora numa cidade tão arrumadinha quanto essa! O caos de SSA te agrada tanto assim?

PS. hoje é sexta portanto vc está atrasado com o post desta semana.

Anônimo disse...

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