segunda-feira, janeiro 23, 2006

Eu, vovó e as passistas

Vovó é uma octogenária daquele tipo durinho e reclamão de velhinha que cria problemas onde quer que vá. Já teve sua leva de atritos com motoristas de ônibus, feirantes, quitandeiros e todos os tipos de moleques do bairro onde mora. A todos, triunfante no meio de uma discussão, grita um "A mim ninguém faz de besta!!", que quer tenha ela razão ou não, ganha todo o peso do misto de cumplicidade e respeito que geralmente suscita nas pessoas o dito de um idoso enraivecido e indignado em situações deste tipo. Resumindo: a minha avó é brigona, e gosta de ser assim... Faz questão de mostrar sua independência, e roda a cidade portando seu cartãozinho de gratuidade. Infelizmente, o peso dos anos parece estar lentamente lhe cobrando sua quota, o que explicaria o fato de ela perder-se outro dia próximo de casa, e também vir deixando pratos passarem do ponto com tanta regularidade ultimamente (os pratos, ela evidentemente nos faz comer... afinal, segundo suas próprias palavras, "só 'pegou' um pouquinho, meu filho... Mas está tão gostoso!"). Vovó faz sequilhos e sucos deliciosos, e é extremamente carinhosa com todos os netos - e até com os bisnetos também. Tem um daqueles rádios antigos cujo som rouco e enjoativo a surdez faz com que seja compartilhado com vários de seus vizinhos, geralmente sintonizado em violentos programas policiais (que ela adora dormir escutando).

Gosto muito de quando ela resolve vir aqui em casa. Sua chegada segue um ritual todo próprio. A começar pela campanhia, por exemplo... vovó tem o hábito de deixar o dedo na campanhia o tempo que dure a chegada de alguém à porta pra atendê-la (quer isso leve alguns segundos ou cinco minutos), o que faz com que às vezes até o filho do dono da mercearia do lado perceba sua chegada. Entra reclamando de que anda cansada e com dores (deixar de andar de ônibus pra todos os lados? nem pensar!!), e após uma sutil e quase imperceptível revista pela casa - com o intuito de certificar-se de que minha mãe esteja mantendo tudo de seu agrado, creio eu - vai com sua sacolinha pra cozinha. Seguimos, e ela começa a tirar as coisas que invariavelmente traz pra nós. Por mais rápida que seja sua vinda aqui, não lembro de algum dia ela haver deixado de trazer um mimo qualquer... um docinho... um pãozinho com queijo...

Vovó tem um hábito engraçado. Basta que sentemos em frente à tv pra assistir alguma coisa, e lá vem ela puxando papo. São monólogos interessantes, imagino, já que não presto mais muita atenção. As histórias são um tanto repetitivas, mas com alguns "hunrum" e um ou outro comentário de aquiescência consigo driblar a situação sem maiores problemas, e sem perder muito do que estiver assistindo. Com o Carnaval aproximando-se e o número de mulatas bundudas exibindo-se na tv aumentando consideravelmente (para meu deleite, e desespero de vovó), as coisas tomam outro rumo. São indignadíssimos seus protestos a cada vinheta de mulata que a Globo exibe. Acho que ela nem notou ainda que não é mais a Valéria Valensa balançando garbosamente comissão de frente e bateria na telinha, mas como o que vale é reclamar, lá vamos nós com um rosário de impropérios.

Sábado agora estávamos eu e vovó assistindo ao programa do Luciano Huck. Mais por inércia, na verdade... Eu, por pura falta do que fazer, ela por estar ali ao lado conversando comigo (tv ligada, eis a vovó na sala, conversando, etc), quando começou o que me pareceu ser um Concurso de Mulatas Bundudas. E se era realmente isso, nossa! Elas bem faziam jus à disputa!!! São o tipo de mulher do qual não se consegue tirar o olho nem que se queira! E, bom... a verdade é que eu NÃO QUERIA... Vovó, logo ali ao lado, vociferava de raiva: "Olha que descaramento! Imagina! A mulher está semi-nua! Imagina se cai aquele nada de roupa que ela está vestindo!!". E eu, cá com meus botões, torcendo pra que isso realmente acontecesse, murmurava alguns "hums" de apoio. Estava mais do que claro que eu e vovó tínhamos pontos de vista ligeiramente diferentes no que diz respeito a mulheres semi-nuas aparecendo em vinhetas e programas de auditório de sábado à tarde. Mas preferi não deixar tão claras minhas preferências, pelo bem do bom convívio.

Mas seja como for, ficamos ambos por ali observando aquelas indecências até que terminou o concurso (infelizmente a menina pra quem eu torcia não ganhou... o que é uma pena, já que ela representava com galhardia minhas convicções do que deve mostrar uma boa escola de samba) e começou um velho filme policial, fazendo com que vovó rapidamente mudasse o foco de sua indignação da sem vergonhice das mulheres semi-nuas para a desnecessária violência gratuita mostrada na tv ultimamente.

Afinal, nos tempos dela...

11 comentários:

Viajante14 disse...

Adoro as vovós ;]

lea disse...

eu já gostava bastante de d. Rosa, depois deste texto, eu gosto mais ainda.
como já havia lhe dito: que 'vea' gostosa!
beijos em tu e nela.

Mary disse...

Minha avó tb reclama do que passa na tv... Eu acho uma graça. ;p
Um dia ao ver um casal de homossexuais se abraçando ela reclamou q a tv não devia mostrar essas coisas... E eu disse: "Mas por quê vó? Isso é normal". :P
São tempos deliciosos que passo ao seu lado uma vez por ano... E ela é tão lúcida ainda que fico orgulhosa de seus 93 anos... :)

PatriciaM disse...

A Pintinha... :P

Vida longa a ela e as suas boas lembranças!

Beijo!!!

Vinicius disse...

Eu conheci sua vovó na porta de sua casa e adoro sua existência, porque eu adoro os velhinhos e sua visão sobre tudo.

Que texto delicioso, romântico e amoroso. Muito bom, muito bom.

Pena eu nunca ter tido avós...

Rah disse...

Que texto fantástico, moreninho!! Nossa, uma delícia de ler! e claro, de se apaixonar pela sua avó =))
Deixo aqui tmb o meu protesto sobre sua alegria diante das mulatas bundudas!
e tenho dito! rs
beijos, Rah

Múcio Góes disse...

Lembro da vó que tive, e vi viva. Era um misto de doçura e resmungo, natural das vós, pelo que se vê... Sorte tua, Léo, tê-la tão próxima, e tão rica em assuntos, o que vc dá vida em palavras carregadas de lirismo.

Sou teu fã!
Belo!
[]´s

Baiano disse...

Meu velho avô (de Conquista) esculhamba a esquerda e enaltece o carlismo... Eu, estando com ele, concordo, também. :)
Afinal, cachorro velho não aprende truque novo, e também procuro o bom convívio com o velho...

[]´s

Menina do Anel de Lua e Estrela disse...

Lembrei da minha avó na hora que comecei a ler o texto. Pode apostar que as caracteristicas são as mesmas...e na época eu achava chato...mas hj morro de saudades dessas pequenas coisas...

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Que saudades me deu da minha avozinha ao ler este texto tão belo... Aproveita bem todos os esses minutos, vais ver que são preciosos mais tarde. Um grande beijo na tua avó

Cristina :)

Anônimo disse...

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