quarta-feira, março 15, 2006

Todo carnaval tem seu fim

Era terça-feira, e o carnaval já apontava seu rumo para aquela hora ingrata, naquele mar onde todas as alegrias deságuam. A confusão sonora era inevitável àquela altura na Rua do Bom Jesus, com o desfile dos blocos, o chacoalhar característico dos caboclos de lanças do Maracatu, as vozes dispersas que se cruzavam ouvidos a fora. O cheiro de suor e álcool inebriante no ar, apenas prolongava a vontade de não mais sair dali. Sentado à beira da calçada, num breve momento de descanso, ele apoiava a cabeça entre os joelhos como se nela morasse todo o peso do mundo. Sacou da peruca black power, passou a mão na cabeça que ainda estava quente, mesmo com o sol já se havendo retirado do palco, e no céu, as estrelas mais ávidas já assistirem sorridentes aos últimos momentos da festa. Ficou ali uns cinco minutos. Alheio a tudo em sua volta.

Lentamente, como quem acorda, voltou à cena que os olhos estranharam, muito mais por culpa da bebida, esta que logo tratou de tatear à sua esquerda na calçada mesma em que estava. Sorveu um gole rico do líquido que trazia ali desde cedo. Com a costa da mão direita enxugou o pouco que escorreu da boca. Tentou levantar, em vão, voltou à posição inicial. Deu-se então um daqueles intervalos entre um bloco e outro, no que diminuiu o fluxo de foliões, e facilitou uma visão mais ampla do que havia por perto. Foi aí que ele olhou numa linha reta à sua frente, exatamente na outra calçada, sentada na mesma posição, uma mulher normal. Olhou para ela mais pela coincidência da posição que por outro motivo, ou atrativo. Achou engraçado que naquela confusão de gente, duas pessoas houvessem tido a mesma vontade de sentar, em posições e momentos idênticos, e, milimetricamente colocadas frente a frente. E não apenas isso, posto que guardavam suas bebidas no mesmo lado na calçada. Num estalo, ambos deram conta do fato, e um inevitável sorriso simultâneo brotou nos lábios separados pelos paralelepípedos da Rua do Bom Jesus.

Levantaram-se ao mesmo tempo. Sorrindo deram o primeiro passo em direção ao outro, e mal perceberam uma troça relâmpago que vinha da Praça do Arsenal, e não deixou que os dois espelhos se tocassem. Num minuto foram levados contra vontade para lados opostos de braços esticados como se dessem sinal de onde estavam, e seguiram tragados pela multidão, olhando à toa de ponta de pé na suposta direção onde estaria o outro. O turbilhão seguiu a rua como um mar de alegria e sons. Os espelhos foram juntos desaguar no Marco Zero. Ele àquela altura, ansioso. Ela desesperada. Na multidão dispersa no amplo espaço do local, eles se transformaram em olhos, buscando um ao outro, e já pensando que o jogo de gestos idênticos era coisa do destino.


Mais de uma hora depois, ninguém havia se reencontrado, e tristes, cada um sentou no muro do cais, onde outros foliões também estavam. E vendo o mar ficaram, cada um com seu pensar, com seu “por que?” ecoando na cabeça. Porém, folião bom não descansa, e os que pousavam no cais alçaram vôo, e deixaram os tristes a pensar na vida. Foi aí que ele, no afã de tatear mais um trago, olhou à sua esquerda e deu com ela girando a cabeça à direita no mesmo instante. Sorriram juntos. Levantaram-se novamente, e livres dos empecilhos ficaram enfim mais próximos. E ela viu sua barba rala com defeitos, e ele viu que seus olhos eram verdes, e que ela tinha sotaque do sul. Ela aceitou seu convite para voltar à folia, e ele pegou na sua mão fria e trêmula. Seguiram como se fossem antigos namorados. Pularam juntos o resto daquela noite mágica. Beijaram-se e beberam da mesma bebida. E quando a última estrela, triste, ensaiava a despedia ante os primeiros raios da quarta-feira, eles voltaram ao ponto onde tudo começou, deram um último e longo beijo, e cada um seguiu seu caminho na sua calçada.

5 comentários:

Leonardo Caldas disse...

acho que você enxerga magia em detalhes minúsculos... ainda hoje lembro dum carnaval há cerca de 6 ou 7 anos em que saí com uma amiga (começamos o carnaval amigos, pelo menos), tomei uns tragos a mais do que deveria, e simplesmente apaguei em plena ondina, na chegada dos trios...

bom... o ridículo da situação de eu estar escornado no chão nem interessa tanto... constrangedor demais... mas, putz... lembro como se fosse agora de abrir os olhos, e estar com a cabeça no colo dela... e, mucio... as sensações visuais eram exatamente as que você descreve!! A sensação de não estar acontecendo nada à volta... a quantidade de pessoas passando que de repente diminui e aumenta, como ondas... o cheiro bom do cabelo da menina, junto com o calor e suor de seu corpo... e a sensação de uma paz boa e intensa, no meio de tanta confusão... de colo de mãe, de tesão, de carinho, sei lá...

nunca que vai ser demais lembrar. você escreve maravilhosamente... e este conto em particular me abriu com força a torneira das lembranças! :)

Múcio Góes disse...

Pow, Léo... q mais dizer dps desse elogio, né? Às vezes "obrigado" perde a força...

Vlw, amigo!

[]´s

Rah disse...

não sei como nem porque.. mas é uma magia atemporal que se dá... carnaval... e quem dirá que essa magia na alma não durará? =) ninguém dirá... bjo

Mary disse...

Mu, um dos seus texto que está aqui na minha lista dos favoritos... Gostei muito... Encantadoramente Múcio =)

Amo. :***

Anônimo disse...

Excellent, love it! »