segunda-feira, julho 17, 2006

Tédio (com um T bem grande pra você)

Ontem a tarde, depois de ficar no hotel o fim de semana todo, resolvi dar uma volta em Brasília. Peguei o carro e fui em direção ao Lago Norte, encontrar com um amigo que mora por lá. Depois de pegá-lo, resolvemos dar um pulo em um pub irlandês da 409 sul. Fechado. Fomos em outro bar, na 303 sul. Fechado. Rodamos a asa sul em busca de alguma diversão regada a álcool, mas a cidade resolveu não ajudar.

Na verdade comecei o texto falando sobre a tentativa de diversão em Brasília num domingo à noite para, na verdade, falar sobre Renato Russo. Conversando com esse meu amigo a gente entendeu de onde o Renato tirou inspiração para escrever as letras da primeira fase da Legião. Caramba, rodamos mais de duas horas e não encontramos nada para fazer! E isso me lembrou a música anúncios de refrigerante, que acabou de ser estragada (gravada) pelo Capital Inicial:

“E chega o fim de semana e todos se agitam, sempre a procura de uma festa. Os carros rodam enquanto se tem gasolina e ninguém nunca agita nada...” E ontem foi exatamente assim conosco. Rodamos enquanto tinha gasolina procurando uma festa. No fim das contas encontramos algo para fazer, na mesma quadra e na mesma asa...

E outra coisa interessante aqui em Brasília, para mim que sou fã do BRock, é passar pelos lugares que eu tanto ouvi nas músicas da Legião Urbana. “Parque da Cidade”, “Conjunto Nacional”, “Eixão”, “Taguatinga”, e tantos outros lugares que fazem parte das músicas que embalaram minha juventude. Não posso dizer ainda que minha relação com Brasília seja de amor e ódio. Estou morando aqui por apenas um mês e ainda não posso concluir nada além de estranheza.

Aqui é o oposto do conceito de cidade. Não tem cachorro vira-latas na rua, gato atrás de rato, gente. Não tem uma viv’alma para pedir informação quando se está perdido. Bem verdade que uma vez entendido o esquema de direção por aqui, fica difícil se perder. Mas é tudo muito esquisito. Você percorre, 40 ou 50 quilômetros como se fosse ali na esquina. Só que aqui não tem esquinas. Eu não me canso de falar que aqui não tem esquinas. Mas não sei explicar o que é uma cidade sem esquinas, apenas vejo e acho estranho. Da mesma forma, não tem ladeiras. É tudo plano. Chega ser tedioso em alguns momentos. E além de tudo isso, estamos na estação da seca. Umidade do ar beirando os 30%. E ainda por cima um frio de rachar. Temperaturas em 10 graus. Respirar aqui é um problema: o nariz arde, os olhos ardem, a boca racha. Da outra vez que tive aqui reclamei da ausência disso tudo em Brasília. Me lasquei, porque peguei tudo em dobro.

Um outro pensamento que tive, enquanto voltava para casa, depois de deixar meu amigo no Lago Norte, foi o de estar dirigindo na capital federal. Não sei quanto a vocês, mas eu nunca imaginei que um dia teria a vida que levo. Sempre fui um cara de classe média, mais pra baixa que pra média, cujos objetivos sempre se resumiram em conseguir um bom emprego em Salvador e, quem sabe um dia, fazer algumas viagens pelo Brasil. Mas ontem eu estava na L4 sentido sul, com o Congresso Nacional do lado direito e o Lago Paranoá do outro lado. E naquela hora eu tive aquele sentimento de deslumbramento que é pouco comum em mim.

Naquela hora eu pensei comigo (enquanto tocava vento no litoral da Legião): caralho, estou dirigindo em Brasília. Estou morando em Brasília. Cara, olha o eixão, olha o congresso... E fiquei ali, com um olho na pista e outro sonhando aberto. Isso acontece sempre que tenho a oportunidade de dirigir, sem me perder, em outra cidade. Lembro do dia em que voltei de Gramado para Porto Alegre. Cara, eu nunca na vida pensei que conheceria gramado, muito menos na semana de cinema e, ainda por cima, dirigindo.

Não q’eu seja um apaixonado por carros. Longe de mim. A verdade é que não gosto de dirigir. Mas gosto de dirigir carros inéditos e em cidades estranhas. Em minha cabeça passam muitos pensamentos, porque eu jamais me imaginei conhecendo tantas cidades, morando em tantos lugares, dirigindo para lá e para cá.

Bom, fico por aqui. Já chega de deslumbramento. Aguardem a viagem que vamos fazer para a Chapada dos Veadeiros.

6 comentários:

Leonardo Caldas disse...

engraçado essa coisa da genialidade da inspiração, velho amigo... imagina o tanto de gente que passa diariamente em taguatinga, e no entanto não imagina a personalidade a um tempo brega e profética de um joão de sto cristo? e no entanto, renato viu... louco isto, né?

a propósito... já pensou em juntar os textos que vem escrevendo de tuas aventuras brasil adentro, e brindar-nos com um livro? afinal, és um desbravador, ao melhor estilo bandeirante pós moderno! :)

delicioso de ler, como sempre.

Vinicius disse...

Ah Léo, quem me dera ter habilidade para escrever um livro. Eu percebo em meus textos muitas coisas desconexas. Ainda preciso muito aprender, antes de pensar em juntar farrapos para criar uma bela roupa.

Mas obrigado mesmo assim!

Crica B disse...

Eu gosto do desconexo, do imperfeito, o perfeito é tão tedioso :-)

Em tempo, da última vez que estive em Brasília, fui assaltada, voltei pra casa com a boca ferida e descobri que tinha fragilidade capilar.

Múcio Góes disse...

Brasilia e Renato, onde se separam no nosso imaginário, hein?

Vini, vc tem um mundo nas mãos, nunca deixe de dividi-lo conosco. Gosto muito de seus textos.

[]´s

Baiano disse...

Me traz boas lembranças...

[]´s

Anônimo disse...

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