quarta-feira, julho 19, 2006

Um caso de amor

Passei de carro esses dias na rua que o Renato Russo morou. Fiquei observando os detalhes, e tentando imaginar sua vida ali, naquele ponto do planeta, distante do resto do mundo, num tempo onde as coisas aconteciam na velocidade da imaginação. Pensei em seus vizinhos, amigos, amores secretos e como era sua vida como um adolescente, em plena ditadura militar, na capita federal. Devem ter sido dias difíceis.

Eu conheço muito da vida e da história do Renato, porque li muito a seu respeito. Depoimentos do próprio, da família, dos amigos. Enfim, não posso me dizer um especialista, mas conheço bastante. E mesmo vivendo aqui em Brasília nos tempos da Internet, onde conhecer uma música está ao alcance de um clique, fico imaginando suas tardes em casa, entediado, ouvindo seus discos e fazendo seus planos para sua futura banda de rock. Engraçado sonhar. Eu vivo sonhando com minha banda, mas ele foi além: tornou seu sonho realidade.

E fico imaginando ele conversando com seu jeito agitado e apressado de falar. Conversando com Marcelo Bonfá, Herbert Vianna, Ico Outro-preto, André Pretorious, Fê Lemos e tantas outras, hoje, lendas do rock. Quais eram os papos? Onde eram os points? Não os oficiais, que todo mundo conhece, mas aqueles lugares secretos para fumar um baseado ou curtir com uma garota.

E viajo nesses pensamentos, num misto de saudade do que não vivi e inveja dos anônimos que, ignorantes do futuro, seguramente não valorizaram aqueles momentos. A tia de um amigo meu de Brasília foi a paixão do Renato por muito tempo. Qual o sentimento dela, hoje, diante desse passado? E os amigos anônimos, onde estão? O que fazem?

As noites frias e desertas de Brasília. Na praça dos três poderes tem uma tocha no alto de um monumento que agora me falta o nome. Passei por lá de madrugada e vi um grupo de jovens lá em cima, fumando alguma coisa que provavelmente era maconha. Não pude deixar de ver ali o Renato e sua turma, batendo papo e viajando na onda do THC. Em frente ao congresso há um enorme campo verde. Ali os jovens se reúnem para tocar violão e curtir a música. Da mesma forma, não há como não pensar nos caras tocando as preferidas, flertando com as gatinhas e curtindo aqueles momentos.

E o Renato monta sua banda. Aborto Elétrico. Quais eram as expectativas dos músicos? Serem famosos sim, mas em que dimensão? E os ensaios? E os momentos de composição das letras e dos arranjos? São muitos detalhes perdidos entre o oficial e a realidade. Fico aqui encafifado tentando viver isso tudo. Mas não dá!

O primeiro show dos caras, no “Só cana”, que hoje nem existe mais, deve ter sido visto com desprezo pela maioria. Eram um bando de filhinhos de papai revoltados com o sistema. E depois vieram os shows e o reconhecimento local. E a banda acaba e Renato vira o Trovador Solitário.

E eu acho que ali ele deixou de ser o filhinho de papai revoltado com o sistema e se tornou Renato Russo. Misturou rock com folk, num estilo próprio e ainda exclusivo desse lado do atlântico. Mas não era o bastante: ele queria ter sua banda de rock.

Só que entre todas essas fases há uma série de momentos, digamos, normais. Acordar, dormir, andar pelas ruas, dar aulas de inglês, estudar, etc. Só que eu acho que em nenhum momento ele se separou da música. Nem dos amigos.

Mas o resto é história. Mas não consigo de parar de pensar, cada vez que passo em certos lugares, que ele andou por ali enquanto pensava em um monte de coisas, dessas que a gente pensa enquanto anda pelas ruas. E com sua turma de revoltados, mudou para sempre a cara do rock brasileiro.

Acho que é por isso que estou gostando tanto de Brasília!

2 comentários:

Mary disse...

Belo texto! Renato Russo e a Legião Urbana é um marco da história do rock brasileiro! :) Eu já fui mais fã...Mas tem músicas que são inesquecíveis, como Vento no Litoral que eu adoro...

Bjus.

Múcio Góes disse...

o asfalto feroz tem seu mel, ne? e por que não deste beber?

[]´s