sexta-feira, julho 21, 2006

Autismo

Entre a lembrança do que foi bom e viver por comodismo, fico entre a saudade e a vontade. Porque alguns são do tipo que sonha. Outros realizam. Eu sou legislador de sonhos, porque vivo a eterna fantasia do que eu poderia ser, evitando a realidade do que não sou. Não tenho coragem de quebrar as regras e seguir sonhos, porque meu limite é legislar. E por isso, a fantasia me completa, tornando as coisas mais frustrantes mas menos insuportáveis.

Não há espaço para a vida que pretendi, porque a vida real me levou para a antagonia dos meus sonhos. Na realidade eu evitei trabalhar os sonhos em troca de qualquer tipo de sucesso. Porque alguns nascem com sorte e outros com talento. Mas existe uma fatia do mercado de pessoas que não têm sorte ou talento. Nela me incluo. Torno os dias ternos na eternidade dos meus sonhos. Entre o público e o privado. Entre a cama e o travesseiro.

E entre e realidade e a fantasia, sigo evitando a verdade, porque não acredito nela. Na verdade a mentira é a maneira de encontrar um caminho suportável, quando a vida é um lamento. Eu não lamento o que eu faço, mas prefiro acreditar que o que deixei por fazer não é débito meu, mas crédito da vida que me ofereceram.

Mas eu, legislador de sonhos, tenho a possibilidade de viver o que quero, num mundo autista e reservado, onde sou aquilo que não posso, existo na medida do impossível e realizo aquilo que desejo. Porque há distância entre intenção e gesto, concreto e abstrato e, no mundo real, sou o oposto do abstrato, tentando ser concreto e confundindo pensamentos, desejos e vontades. Mas vivendo como posso e, nem sempre, como quero.

E na tenuidade das verdades, sigo numa linha imaginária, onde tudo que pretendo é continuar, na medida do possível, suportando a dor de qualquer vida medíocre, onde os momentos de alegrias são geralmente suplantados pelo dia-a-dia. Meias-verdades.

Enquanto sigo com as minhas verdades, ou falsas mentiras e meias-verdade, vou descobrindo todo dia que hoje é só um acontecimento irrelevante, entre a mediocridade e o autismo, no meu mundo secreto e particular, onde posso tudo que desejo e realizo as minhas vontades.

3 comentários:

Melina disse...

Entre o real e a fantasia, um belo texto!

Múcio Góes disse...

um casulo, uma lagarta, e o medo de virar borboleta.

Belo, Vini!

[]´s

Anônimo disse...

Sempre se pode mais do que o que se faz, mas isso é só mais um motivo pra se fazer algo pelo menos. Não?