terça-feira, julho 25, 2006

Juca

Juca era um desses caras boa vida. Não era chagado a trabalho ou compromissos. Não tinha emprego fixo ou dinheiro no bolso. Vivia como Deus deixava, na casa de um e de outro. Isso quando não dormia nos bancos da praça. Nunca foi um cara muito bem visto na cidade, mas também nunca foi desonesto. É o tio que não deu certo de qualquer família. Mas ele tentava. Suas paixões eram o samba, a boemia e Maria.

Maria era uma dessas moças de família, com vida regrada, missa aos domingos e telenovelas. Ah como ela gostava! Passava suas noites em frente ao televisor, imaginando como seria a vida das artistas, beijando aqueles galãs todos e vivendo no glamour das celebridades. Mas Maria era tida como moça pura e não dava bola a nenhum marmanjo. Ainda mais com o pai, coronel bravo, que vigiava os passos de qualquer moço que tentasse graça com sua pequena.

Mas Juca, como todos sabiam, era louco por Maria. Tentou de tudo: bilhetes, recados, teatro na praça, flores roubadas do cemitério e o escambal. Mas Maria nem o notava, coitado!

E Juca pensou e pensou numa maneira de chamar sua atenção. Um belo dia, numa roda de samba, entre uma cerveja e outra, seu amigo Mário o perguntou: “Juca, porque você não faz uma serenata para Maria?”. E não é que Juca gostou da idéia?

O problema era fazer a tal serenata num dia que pai não estivesse em casa porque, de outra maneira, uma bala de sal no traseiro era certa! E lá vai Juca observar a vida na fazenda de Maria. O amor era tão grande que Juca resolveu trabalhar na fazenda só para saber em que dia da semana o coronel, viúvo há 5 anos, sairia para afogar suas mágoas e virar homem nas mãos das mulheres que sabem fazer todo homem ser grande.

E assim foi. Sabendo que toda sexta-feira o caminho estava livre, Juca combinou com Mário que a serenata seria na sexta próxima. Só que Juca, vaidoso que só, não queria cantar qualquer samba. Tinha que ser algo que realmente expressasse seu amor por Maria. Então resolve compor seu samba.

Com aquele português clássico de cais do porto e uma voz de gato no cio, Juca se prepara para o grande dia. Não foi trabalhar, tomou banho e encheu a cara para tomar coragem e cantar bem.

Já eram mais de 11 horas da noite quando Juca chega para cantar. Maria, moça de família, há tempos já tinha ido dormir. E Juca começa a cantar e cantar. Maria, dormindo, nada ouve. Só que o Coronel, meio gripado, resolveu não sair naquele dia e ouviu a tal cantoria. Já irritado, percebe que Juca, o tal Juca, estava tentando cortejar sua pequena. E não se fez de rogado: ligou para seu amigo, Pereira, delegado da cidade, para acabar com aquilo tudo. “Ou então eu meto bala”, vocifera o Coronel!

E Juca lá, todo empolgado, cantando com sua voz de gato no cio, não percebe quando chega a viatura...

- Teje preso cabra safado! Onde já se viu cantar na janela de moça de família?
- Mas seu delegado, só estou tentando ganhar minha Maria.
- Nem mas nem meio mas. Aqui na minha cidade a lei tem que ser cumprida. Cala boca e entra na viatura meliante.

Juca muito esperto, tenta convencer o delegado que a prisão não era válida. Desde quando alguém é preso por cantar? Tudo bem, o terreno é privado, já eram altas horas. Mas ser preso era um pouco demais...

- Vamos cabra! Entra na viatura.
- Seu delegado, não podemos conversar um pouco? Desde quando o amor é crime ou o samba é pecado?
- Meu amigo, a questão não é essa. O senhor invade o terreno dos outros, do CORONÉ, uma hora dessas, fica fazendo essa cantoria horrorosa, sambando na frente da janela alheia, e quer que o faça o que? O homem é bravo! Ou vai em cana ou leva bala!
- Delegado, o senhor pode ser bamba na delegacia, mas o senhor nunca fez samba e nem conhece Maria. Vamos fazer o seguinte: vamos tomar umas, bater um sambinha de mesa e conversar um pouco mais. Hoje é sexta-feira, não vai ter crime para o senhor resolver.
- ...
- Vamos lá.

E lá vão os três: Juca, Mário e o delegado, fazer samba e boemia. Maria? Roncando que nem uma porca daquele jeito não acordaria nem com a terceira guerra mundial.

O samba que Juca cantou pro delegado?

Juca foi autuado em flagrante como meliante
Pois sambava bem diante da janela de Maria
Bem no meio da alegria a noite virou dia
O seu luar de prata virou chuva fria
A sua serenata não acordou Maria

Juca ficou desapontado declarou ao delegado
Não saber se amor é crime ou se samba é pecado
Em legítima defesa batucou assim na mesa
O delegado é bamba, na delegacia.
Mas nunca fez samba nunca viu Maria
O delegado é bamba na delegacia
Mas nunca fez samba nunca viu Maria

Juca - Chico Buarque

4 comentários:

4º interculturalidades - Brasil Profundo disse...

Olá, sou nova no Blog e gostaria de divulga-lo.
Meu Blog é sobre um projeto que acontece todos ano no Centro de Artes UFF, em Niterói/ RJ
Passe lá e confira!
Obrigada

Baiano disse...

Ninguém pode dizer que ele não tentou... :)

[]´s

A czarina das quinquilharias disse...

linda homenagem.
lá se vão minhas palmas todas...

Múcio Góes disse...

Bela montagem, Vini!

[]´s