sábado, julho 08, 2006

Valente.

Era um homem de poucas manias, mas insistia em manter o seu Gurgel 82. Bem verdade que o carro já houvera sido completamente trocado, peça por peça, com a possível exceção do chassi. Mas quando isso é feito aos poucos, não se sente.
À época da faculdade, ainda, quando conseguiu juntar grana da mesada e de uns softwares que fazia, eventualmente, em Clipper, para algumas empresas, comprou o carro. Usado, mas ainda quase novo. Mal tinha dinheiro para colocar gasolina. Quando a idade veio para o pobre carro, e algo que não impedisse de andar quebrava, quebrado permanecia. Não por falta de cuidado, mas por falta de recurso.
Nisso, ia que o carro não tinha o retrovisor interno, que a porta do motorista era amarrada com duas cordas (no dia que caiu, o fez no meio da Paralela, e por pouco não causa uma tragédia maior). Entrava-se pela porta do carona. A lâmpada interna não ligava, a terceira marcha, das quatro, não funcionava. Era uma grande coisa administrar as oitocentas cilindradas da segunda para a quarta.
Os pneus rodavam sempre carecas - quando não tinham mais jeito, comprava pneus usados no borracheiro. Cada vez um ou mais faróis não estavam funcionando, ou os piscas. Até sem freio, também, andava. E isso tudo sem falar nos barulhos, nos rasgos do estofado, manchas nos plásticos, no porta luvas que abria quando a roda batia num buraco, dando um susto em eventuais caronas desavisados, na fumaça, na falta dos tapetes, e tantos outros detalhes e idiossincrasias justificadas do Gurgelzinho velho de guerra.
Chamava-o de Valente, e eventualmente, até, conversava com ele, especialmente quando falhava andando...

- Ora, Valente! Não esmoreça! Só faltam setenta quilômetros para chegar de volta em Salvador! Prometo que te dou um óleozinho novo! Troco mesmo! Nada de completar, dessa vez! Vamos, Valente!

Ou quando ocorria de a não dar certo a ignição:

- Vamos, Valente! A vida é boa, amigo! Olha que solzão lá fora! Vamos dar uma voltinha! Ver o mar! A gente vai buscar a Rita, sabia? Aquele traseirão vai estar no seu banquinho em minutos!

Uma associação engraçada que o Pereira fez, era que ele parecia estar falando com um cavalo. É quase tão bobo conversar com um cavalo quanto com um carro, mas realmente a imagem parecia fazer sentido. "Tipo aqueles velhos faroestes", de onde a charanga parecia ter vindo, ainda segundo as pilhérias do Pereira...
Mas as conversas eram tão boas que, às vezes, Valente acabava indo. Outras vezes não ia, e tinha que se chamar o Arionor - o mecânico e "pai" do carro.
- Vim buscar o meu filho! - anunciava Arionor, um negro baixo, feio, gordo, bigodudo e sorridente, chegando em seu velho Fusca verde.
Algumas vezes conseguia resolver o problema lá mesmo, noutras rebocava, com o fusca e umas cordas, o carro, até a Vasco da Gama - desfilando uma cena peculiar do Gurgel verde sendo rebocado pelo Fusca verde.
Depois o velho Nonô trazia o carro de volta na porta da casa do Neto, e declarava coisas como:
- Foi o cabo do acelerador que partiu, seu Neto. Mas eu dei um nó bom, e não gastou nada, não. Só tem que tomar cuidado que o acelerador vai ficar mais alto, agora.
- Diz aí quanto é que eu te devo, Nonô?
- Dessa vez nada, não! Na próxima, quando for alguma coisa, você paga!
E o Neto, constrangido, não tinha nem condições financeiras para fazer questão de pagar.
Tinha o lado bom da história, também, é claro. Era o único carro da turma - o Marquinhos e o Valmir tinham motos - a Petarda e a Lady, respectivamente. Mas o Valente é que cabia gente e mala para levar a turma aos acampamentos, praias e viagens que eles organizavam sempre que podiam - Itaparica, Aracaju, Porto Seguro, ou até um passeiozinho domingueiro para Piatã...
Isso sem falar nos namoros no carro. É impressionante o que se pode fazer, se houver (boa) vontade, numa “caixinha de fósforos” daquela. Lembrava com saudades da Claudinha - que não o saiba o Valmir -, da Meire, da Luana e, claro, das primeiras vezes com a Fábia... e o velho Valente sempre estava nas lembranças. Bem verdade que tomou o lendário fora da Joana, também, encostado nele:

- Pare com isso, Neto! Não ta vendo que eu sou muita areia para o seu Gurgelzinho!

Ao que arrematou na lata, para os risos da turma:

- Calma, Valente! Ela não falou por mal! E você sai logo daqui, Joana, que acabou de magoar o meu carro!

Nunca mais teve chance com a Joana. (Não que já houvesse tido realmente, mas quem sabe?)
Comoção maior se formou, na turma, quando o Arionor morreu.

- O Valente sobreviveu ao velho Arionor, hein, rapaz? E agora, quem conserta?

E lá iam dois anos que ele não encontrava nenhum mecânico tão bom quanto o velho Nonô.
Há algum tempo já tem dois carros - a firma de software vai de vento em popa e, atualmente, o segundo carro é um belo utilitário esportivo, que acomoda toda a família. Fica geralmente com a Fábia, que hoje é sua mulher.
E eis que, depois de um jogo no Barradão, ao qual ele foi com o Gurgelzinho, hoje em dia recauchutado, parecendo novo, o bicho começou a fazer um barulho. Na manhã seguinte estava com o carro no Luís, o mecânico que ele estava tendendo a “adotar”, na Baixa de Quintas. O ajudante, um chinesinho a quem chamavam “Bruce Lee”, acompanhava ao largo.

- E aí, Luís?
- Bom dia, seu Neto! Qual foi o problema?
- Está fazendo um barulho, quando troca a marcha.
- Como é o barulho?
- Um barulho seco, e meio estridente, parecendo de metal arrastando...
- Sim, mas, como foi?

Era uma situação nova. Nonô buscava o carro e via por si. Das outras vezes que levou o carro em Luís, não eram barulhos.

- Como eu falei, ora! É rapidinho, assim, deve durar um segundo! No momento da troca de marcha... Estridente.
- Ué... Faz aí o barulho!
- Fazer?
- É.
- Quer dar uma volta no carro?
- Não precisa. Tô com outros, inclusive, para resolver aqui. Faz aí o barulho, seu Neto!

Fez rápido, com uma cara de normalidade, para não ficar de bobo.

- Chiic! Chiééc!

Bruce Lee, a dois metros, riu.

Neto deu uma desculpa e saiu - foi direto para uma concessionária -, e comprou um carro novo, um Celtinha completo. Ainda saiu algumas vezes com o Gurgel, mas o barulho aumentou, e há alguns meses, Valente envelhece na garagem, parado...
(Viva o Expressões! Viva a reforma! Vida nova - textos quase todos os dias. Deu certo!
E vamos que vamos!!!)
[]´s

5 comentários:

Crica B disse...

Eu tive um carrinho que eu amava, o Cogumóvel. Saudades do meu carrinho, o Valente não pode ser deixado de lado, é o carro certo pra se passear aos domingos. :-)

A czarina das quinquilharias disse...

ah, eu sorri.
lembrei do meu fusca, o bonifácio.Também conhecido como "o bólido"...

Mary disse...

Bela história. O Valente não pode ser esquecido... Mas o tempo às vezes é cruel... :)

Beijos!

Múcio Góes disse...

hehehe... Gurgelzão 800, caindo porta na Paralela, poutz! Vlw, belo texto com audosismo cheirando à gasolina.

[]´s

Anônimo disse...

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