quarta-feira, agosto 09, 2006

Como seria s’eu não fosse

S’eu não fosse um chato de galocha eu seria desses caras divertidos que gostam de praia e contam piadas engraçadas. Seria o tipo que sai com os amigos para beber e “zoar” sem pensar nos problemas da Somália ou das guerras sangrentas. S’eu não gostasse de Chico Buarque eu ouviria todos os sucessos do momento, as músicas do verão e conheceria todos os artistas que fazem sucesso com uma música esdrúxula qualquer.

Se não fosse roqueiro, eu adoraria carnaval e pularia atrás do trio elétrico todos os dias do carnaval, iria para todos os shows de axé, pagode, e calypso. S’eu não fosse responsável e preocupado com o meu futuro eu não acordaria todos os dias para chegar cedo no trabalho, nem viajaria tanto. Talvez eu tivesse qualquer emprego que pagasse minhas farras no fim de semana. Como eu também não gostaria de arte, filosofia e política, minhas conversas seriam norteadas exclusivamente por carros da hora, futebol e mulheres. Não teria qualquer preocupação com os rumos do país e nem pensaria sobre coisas idiotas como existência, aspectos sociais e jamais questionaria o mundo em que vivo e as coisas todas da humanidade.

S’eu fosse do tipo preocupado com a aparência em detrimento do cérebro, eu malharia todos os dias para ficar com um corpo bem sarado e desfilaria na praia, exibindo meus músculos torneados para as beldades, também torneadas e bronzeadas. Eu poderia não ser um eterno crítico de tudo: do mundo, das letras, das coisas erradas e das injustiças. Na verdade eu nem saberia criticar alguma coisa, porque o mais importante para mim seria meu umbigo.

S’eu não me preocupasse com os sentimentos alheios, eu sairia com qualquer mulher bonita e gostosa, sem me preocupar em ligar no outro dia, nem me preocuparia em ofender e magoar os outros com meus comentários impertinentes. As mulheres seriam apenas objetos para obtenção de prazer fácil e constante.

S’eu fosse idiota, eu sofreria menos as dores que não são físicas e também não me lembraria de pensar em todas as coisas que norteiam eternamente meus pensamentos. Eu estaria sempre sorrindo um sorriso verdadeiro, mesmo sem saber a razão do sorriso. Jamais entenderia comentários com mais de um sentido e também não entenderia o sentido das coisas obvias.

Mas eu resolvi ser um chato de galocha, do tipo que não sabe contar piada, que gosta de Chico Buarque e abomina a música do momento. Resolvi nadar contra a maré e gostar de rock na cidade do axé e não carrego comigo o estigma do baiano preguiçoso, só porque eu sou do contra. E ainda por cima resolvi gostar de arte, filosofia e política e minha conversa é sempre chata e pedante. Sou o tipo interessante apenas àqueles que sabem a diferença entre deputado e senador, ser e estar, ter a haver. Porque existir é conseqüência de pensar: já me disse Descartes.

E nadando contra a maré, gosto de ler ao invés de ver televisão e acho cinema americano supérfluo e desnecessário. Sou contra qualquer tipo de populismo e odeio veementemente a tentativa eterna do homem de ganhar dinheiro com a ignorância q’eu teria s’eu fosse o oposto de mim. Da mesma maneira, tenho uma preocupação acima do normal com o outro. Não gosto de falar a verdade quando ela dói e só gosto de prazer mútuo. E não sendo idiota, sigo sofrendo as dores do mundo.

Mas entre todas as maneiras de ser eu, aquela que me dói mais é saber que amar você é o que torna minha vida mais difícil todos os dias.

5 comentários:

Leonardo Caldas disse...

você não é chato, pedante ou medíocre... e sabe disto... aliás... disto sabemos ambos!

muito pelo contrário... você gosta das coisas certas, tem as influências que pessoas que valem à pena devem ter...

escreve maravilhosamente... e está apaixonado! ;)

Anônimo disse...

Acho que todo mundo tem vontade as vezes de saber como seria se suas decisões fossem diferentes.

Não te conheço, mas achei seu texto fantástico. Repleto de verdade e de paixão, como poucos que encontro por aí.

Parabéns...

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Adorei o teu texto! Tão bem escrito... E como eu o compreendo... Amar é bom, mas muito difícil ao mesmo tempo...


Parabéns.

Múcio Góes disse...

amor é foda, mesmo! até qd dói é gostoso.

[]´s

Anônimo disse...

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