sexta-feira, junho 23, 2006

Quando meu pai ganhou uma bengala

Não vai muito longe na conta dos dias a tarde daquele verão fiel em que eu estava sentado debaixo do frondoso jequiriti que margeia o portão da nossa casa. Era uma segunda-feira, lembro bem. Um táxi subiu na calçada, e no banco de trás, sorrindo, meu pai. Chegava de mais uma de suas viagens, das que sempre adorou fazer, peregrinando pelas casas das filhas, as que moram em Recife. Desceu do carro com uma certa dificuldade, e me apontou fazendo graça uma bengala que trazia consigo. De chofre fiquei assustado, pois, é mais que natural aos filhos, verem os pais com a mesma idade com que formaram a primeira imagem, lá trás, quando paravam de chorar no seu colo, ou, reconheciam o seu cheiro.

Meu pai me acostumou a vê-lo com a mesma força de sempre. É fácil de encontrar nas casas onde somos irmãos trabalhos em marcenaria feitos por ele. Era seu hobby. Cresci ouvindo o barulho do seu serrote aos sábados; as batidas do martelo que quebravam o silêncio; seus raros pedidos de ajuda que espantavam minha preguiça. Quantas vezes o vi seguir para Recife com a velha bolsa de ferramentas onde havia de tudo, desde uma máquina furadeira, até um prego torto que saíra de alguma madeira na casa da praia. Minha irmã do meio sempre pedia seu socorro, fosse uma cama quebrada, ou uma prateleira nova para ser colocada numa parede qualquer. E lá ia Seu Góes e suas tralhas. Incrível como as quinquilharias guardadas por ele, e xingadas pela minha mãe, sempre encontravam utilidade no porvir.

Seu ofício mesmo era de laboratorista, e foi um funcionário exemplar nos 36 anos que serviu à Fundação Sesp, hoje Funasa. Começou a trabalhar no norte do país no combate à malaria. Andou pelo Amazonas, e o Pará, seu estado natal. Longe de ser um romântico conquistador, homem de pouco falar, casou-se com minha mãe e somos hoje quatro filhos. Veio parar em Palmares, onde eu nasci, e ele se aposentou, mas, seguiu junto com minha mãe tocando um laboratório com competência e amor ao que faziam. Profundo observador, é aquele tipo que quando abre a boca despeja verdades incontestáveis, e, faz com que nos olhemos em volta, com sorrisos aprovadores, ou, falsas revoltas. Seu jeitão calado jogou a liderança do lar nas mãos da minha mãe, e posso dizer hoje que nunca tive uma conversa de homem com ele. Tampouco foi preciso, a rua me ensinou o que seu silêncio não deu. Já como provedor, queixas quaisquer serão injustas. Tudo no fundo faz sentido, posto que não se faziam pais modernos há quarenta anos.

Naquela segunda-feira parei para refletir aquela cena: meu pai fazendo graça com uma bengala na mão. Vi àquele instante o quanto o tempo é silencioso. Por mais que nossos olhos insistam em nos negar sua passagem, ele segue devagar e paciente, como um cupim rói a madeira. Seu Vinícius seguiu desajeitado pelos dias com sua bengala - presente de Dona Lurdinha, velha amiga da família que já fazia uso de tal apoio por conta das artroses advindas com o peso do corpo, e dos anos. No começo andava com a mesma apontada para frente, como fazem os cegos, talvez pelo fino fio de uma vaidade que o impedia de fazê-la apoio. E logo foi necessário extrair da “amiga” o seu papel. Veio um dois de fevereiro, e em meio às comemorações de meus 34 anos, notei sua ausência, e uma movimentação estranha. Um leve AVC. E uma seqüela lhe tirou a força que meus olhos sempre viram...

As voltas do ponteiro maior não se alteraram, e o mestre Sol seguiu nascendo no mesmo Leste, e indo morrer na casa de Vênus. Meu pai foi andando cada vez mais lento. As dificuldades se evidenciaram quando o simples ato de tomar um banho virou a pedra de Sísifo. Outro dia, o destino deu linha à pipa, e nossa cegueira que impedia de o vermos fraco, deixou que ele tombasse. Bateu a cabeça, e ao ver aquele sangue, me coloquei no seu lugar. Vomitei por toda a noite, como se sentisse suas dores. As seqüelas da queda vieram lentamente, mesmo depois que a tomografia mostrou a ausência de coágulos. Seus olhos negaram o brilho que minha infância guardara. Seu serrote nunca mais quebrou silêncios. Sua voz de hoje me angustia, quase não o entendo. Ontem, no jogo do Brasil (futebol é uma de suas paixões), ele cochilou ao meu lado. Perdi vários lances mirando seu rosto triste. Com medo de cair ele se nega a caminhar. Passa maior parte do tempo deitado. Sua solidão me incomoda. Tenho vontade de ler para ele, mas a sua surdez estorva o meu desejo. No próximo dia seis meu pai completará 90 anos. Adoraria acordar ao som das batidas de seu martelo, ou, ouvindo seus reclames quando o time de Parreira atrasa a bola. Mas, hoje meu pai anda numa cadeira de rodas, e eu morro de saudades daquela segunda-feira em que ele ganhou uma bengala.

Pai, eu te amo!

5 comentários:

Nanna disse...

Lindíssima homenagem...

Amo vc.
Beijos de saudade!
:)

PatriciaM disse...

Mais uma vez, lindo!

Só acho que o tempo grita ferozmente, os surdos somos nós...

Feliz quem tem o bom pra recordar!

Cheiro!

Mary disse...

Lindo, Mumu!

Encheu-me os olhos com suas lembranças tão ricas e belas... Só você... Só o amor...



Beijos!

Viajante14 disse...

Bela homenagem :)

Gostaria de ter tido um pai para, talvez, compartilhar contigo tamanho sentimento.

:)

Leonardo Caldas disse...

ah, múcio...
caralho, viu... alguns de teus textos deveriam vir com uma advertência antes de a gente ler... qualquer coisa do tipo texto tocante: para ser lido quando tiver com excelente estado de espírito

e esse me pegou realmente com a surpresa dum soco à covardia... tô lembrando de meu pai... de como eram as coisas na minha infância... e de como são hoje... quero que ele morra não :(

e as porras das lágrimas que ficam insistindo em cair...