sexta-feira, agosto 18, 2006

Carpe Diem

Era uma noite comum. Jantar entre familiares sem muitas expectativas. Carol não se arrumou com muito esmero, a ocasião não era formal. Ela não podia imaginar que aquela noite mudaria a sua vida de forma tão drástica.

Ao chegar na casa da tia percebeu de imediato uns convidados atípicos. Bateu o olho no Pedro e já sentiu seu coração bater mais forte. Ele não era lindo, longe disso, olhando bem até parecia ser meio frágil, mas o olhar dele era o mais terno que poderia existir. Carol imediatamente se apaixonou por aqueles olhos. Começaram então as melhores três semanas da vida dos dois. Foram semanas de encantos, deslumbramentos e descobertas. Trocas de olhares, carinhos, beijos, de uma hora para outra a vida passou a ter um sentido e os dois, embasbacados com tão intenso sentimento, viveram esses dias felizes e um pouco abobados.

Até aquela fatídica tarde de maio. Dia fresco, sol fraquinho e um cheiro gostoso de bolo recém saído do forno no ar. Um dia perfeito para uma notícia tenebrosa. O Pedro chegou muito sério – parecia não perceber toda a magia do dia - e sem muitos preâmbulos falou que tinha tido câncer, se tratado e julgava estar curado, mas tinha descoberto que o câncer tinha voltado e começado a se espalhar. A primeira reação da Carol foi abraçá-lo, queria protegê-lo. Mas ele a afastou. Disse que a amava muito, mas que não queria que ela se prendesse a ele. Não queria que ela sofresse se ele partisse.

Em vão ela tentou retrucar. O amava tanto que queria estar ao lado dele. Não importava se sofreria ou não, aliás, já se sentia coberta de aflição, com um peso no peito e uma vontade enorme de sentar e chorar. Ela precisava estar com ele e não estava exigindo nenhuma garantia. Mas ele a amava demais e não queria que ela acompanhasse seu sofrimento e muito menos que se abatesse junto com ele. Por amor ele terminou. Por amor ela queria continuar.

E assim o tempo passou. O Pedro tentando se curar, a Carol tentando se segurar. Enquanto o Pedro a evitava, ela se controlava. Ele só piorava e sem muitas esperanças médicas, eles aguardavam, separados por uma doença cruel e um grande amor sufocado, o inevitável. Até que chegou. Ela estava em casa pedindo a Deus por ele, quando o telefone tocou. Não precisou atender, ela simplesmente saiu e se dirigiu ao hospital. Esmagada pela tristeza lancinante, ela se despediu do seu grande amor com um afago no rosto e um beijo na testa do corpo já frio.

Novamente o tempo passou. Há 3 meses ele tinha partido e parecia ter sido ontem. Ela começava a ser intolerante, tinha cansado de ouvir as pessoas dizerem que sua dor ia passar. A dor era dela e ela não queria que fosse embora. Curiosamente não tinham fotos juntos, a única lembrança física que ela guardava era uma camiseta suja de suco de laranja que ele deixara em sua casa. A camiseta que ela agora tratava com reverência e que dobrou cuidadosamente, enquanto sentava na cama e chorava seus sonhos despedaçados. Sentiu ainda nos dedos o cheiro do desodorante que nem os meses na gaveta conseguiram tirar. Ainda tentando criar forças pela derradeira vez, antes de deixar a melancolia tomar conta do seu corpo, ela afugentou uma teimosa lágrima, sorriu com cara de Olcadil e levantou trôpega, na sua frágil tentativa de esquecer o passado. Não conseguia. Não queria esquecer. Tudo o que pensava era em um dia reencontrar o Pedro, não sabia mais se ainda queria viver.

3 comentários:

Múcio Góes disse...

é que certas dores não têm nome, nem cura.

texto forte, belo.

bjo.

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Muito triste, na verdade... Mas belo... Parece tão real que me fez chorar...

Mary disse...

As dores da vida... Mas, os momentos de felicidade valem a pena... :)


Adorei!
Bjus! ;**