domingo, setembro 24, 2006

Alice no país das bailarinas

No quarto de solteira em que vivia, além do mobiliário normal, havia um oratório, onde santos vários repousavam. Na parede, uma pintura de singelos campos e autor mediano. Cobrindo sua janela para o poente, uma cortina em seda azul celeste. Sobre a penteadeira, alguns artefatos para auxiliar suas poucas vaidades, e, algo que trazia consigo desde os quinze anos. Uma caixinha, dessas de música, forrada em veludo escarlate com detalhes de um metal dourado nas quinas da tampa. Dentro, cartas, mimos, lembranças; e, sempre vívida, a bailarina. À cama de conforto razoável, sentou-se Alice. Lançou o olhar até a caixinha, e buscou-a. Abriu-a bem devagar com um leve tremor de emoção nas mãos nodosas. A mesma lágrima de sempre, vista no espelhinho gasto pelos anos, chegou aos primeiros acordes de La Bagatelle. Aquele ato para uma pessoa comum bem poderia ser cometido automaticamente, mas, para Alice, não. Havia todo um significado dentro e fora daquela caixinha escarlate. A música, em sendo a mais comum, a mais ouvida por aqueles que têm suas caixinhas, esta, para Alice era única, como se o tal compositor surdo a tivesse feito inspirado por ela, musa daquele numa outra vida. Dentre os significados havia também o cheiro, posto que de dentro exalava um olor de lembranças de toda sorte. Mas, a bailarina, esta mexia muito mais com Alice que a música, o cheiro, e até mesmo as cartas, suas relíquias de amores temerários. Os anos não conseguiram atingi-la. Seu corpo esguio, sua delicadeza, o porte elegante, o semblante descansado; nada em tantos anos mudara. Nada. Ela nunca saiu dali. Estava sempre a postos, era só levantar a tampinha, ouvir a música, e evoluir, flutuar em plumas ao piano doce de Ludvig. Alice parava no tempo assistindo àquilo. E chorava. Cada lágrima, uma recordação. Lembrou do seu primeiro amor, dos olhos e do cheiro dele, da primeira flor roubada que ganhou. E chorou mais pelo tempo que pela perda. À época desse amor primeiro, trazia a tez macia, e uma alegria que fronteira alguma continha; sua beleza de coisa rara, coisa que atraía olhos e suspiros. Agora, havia breves resquícios desse passado apenas num resto de brilho que o olhar guardava em solidão. E lembrou que hesitou viver seu amor de moça por excesso de zelo por si mesma. E chorou ao perceber que em outros amores, e situações, também agiu assim. Alice sabia que de tão diferente, passara a ser igual à bailarina que morava na sua caixinha de veludo escarlate com detalhes de um metal dourado nas quinas da tampa. Tão protegida, tão vulnerável. Por um instante, olhou pela janela semi-aberta, e viu que lá fora tudo vivia exposto, das begônias aos pardais, dos beija-flores aos girassóis, chovendo ou não; e que tudo aquilo era vida, e viria morrer quando fosse o tempo. Tudo tão natural. Enquanto ela passava os dias no seu mundinho, agindo na segurança do não-fazer, crendo estar segura num terreno de infertilidade tão aparente. Quantas vidas Alice deixou de viver, quantos amores, quantas dores. Anos perdidos, guardados na pseudo-segurança de uma caixinha de lembranças. Hoje, ali, sentada em sua cama, apenas hoje, e um tanto tarde, foi que ela percebeu que suas rugas, suas dores, seus não-amores, tudo contrastava com a sua bailarina de metal, mas, no restante elas eram uma só. Posto que viveram tantos anos sob o olhar de uma prudência velada, julgando que o medo de sofrer afastava o sofrimento. Assim, em ter sido tão cautelosa, Alice agora era só dor.

3 comentários:

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Mesmo a tua prosa é poética... De uma sensibilidade tão tocante... Fiquei com os olhos cheios de lágrimas... Porque o texto é lindo... de uma beleza tão doce...
Obrigada :)

Mary disse...

Lindo, Múcio!

Que depois da dor a bailarina Alice aproveite a dança... :)


Estava com saudade de te ler aqui!

Beijos!

André disse...

Senti falta dos seus textos, eles fazem uma falta enorme, quando se lê traz uma paz, as vezes uma tristeza, muito bom meu caro Múcio. Não preciso dizer que te adimiro, preciso? Tá bom de pensar em publicação de livro meu velho! ;)